segunda-feira, 3 de abril de 2017

Amor à primeira lida






    Contava sete anos quando me deparei com ela. Empatia recíproca, entre tantos garotos que lhe fizeram a corte, tinha eu grande chance de ser seu escolhido.
     Era a escola o principal cenário de nossos encontros. Diariamente eram-me reveladas algumas particularidades de sua personalidade, seus meandros e possibilidades. Eram inúmeros.
     Bibliotecas, bancas de revistas, Chico Buarque, Oswaldo Montenegro, Domingos de Oliveria, Glauber Rocha, Aldoux Huxley, George Orwel, Karl Marx e muitos outros que conheci através de seu intermédio fizeram-me ficar mais apaixonado por ela.
     Como saber se era correspondido? Como saber se estava à altura de suas expectativas?
     Como não tinha certeza se teria sucesso ao me declarar para ela, resolvi investir em meu intelecto e conhecimento de mundo. Acreditava que se tivesse leitura e viagem suficiente, conseguiria conquistar seu amor e devotamento.
     Passava o tempo, livros e autores. Cada nova obra que conhecia era um motivo para aumentar minha estima por ela e a incerteza do seu sentimento por mim. Ela era gentil, dócil, amiga, meiga e envolvente. E amor? Ainda não havia resposta.
     Muitas vezes pensara em declarar-lhe minhas intenções e acabar com essa dúvida.
     Em meus devaneios apaixonados, ela tomava a iniciativa e confessava-me que sempre me amou , que o fato de eu lhe admirar já era prova suficiente de amor e de uma união que seria para sempre feliz. Ah, imaginava com tanta concretude que por um átimo essa cena me parecia realíssima.
     Quando atingi a maioridade de meus sentimentos e impulso, entendi que chegara a hora de ser franco, sincero, sem temer a possível rejeição. Ela sabia de meu caráter, minha boa índole e não iria se ofender se lhe expusesse meus recônditos sentimentos.
     Com voz melíflua, em um fim de tarde com o rosto contra a luz segredei-lhe anos de paixão, devotamento e ardoroso amor apaixonado.
     Contei-lhe os inúmeros livros que lera, discos que ouvira, peças teatrais que assistira, debates culturais que participara no afã de estar à sua altura, cultural e sentimentalmente ,e assim, confessar todas as sentimentalidades de enamorado, que fora cativado por ela, enfim, contei-lhe que a amava.
     Ela, como resposta, dissera que o amor sempre esteve entre nós. O amor sempre estará entre cada vírgula e reticências de nossas efêmeras vidas. Assim tornei-me amante da palavra.




segunda-feira, 6 de março de 2017

Signos em evaporação






Oh poesia,
Onde andas,
O que és?
Quanto mais me aproximo,
Mais tu te afastas.
Foges do ninho de quem te ama.
Andas pelas cabeças de transeuntes,
Iletrados, loucos e gênios.
Os junks ceiam em tua mesa,
Tomadores de absinto dormem em seu leito.
Todos extasiados de amor.
Quando andava torto,
Tu eras minha reta.
Caso saísse da medida,
Tu de compasso me servias.
Agora ando por vias retas,
Teus versos pedem linhas tortas.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

LIVRE A GIRAR






Esqueço chaves,

Relógio,

Tempo ,

Ofensas,

Tristezas

E carteiras.

Certo dia,

Eu, de tão distraído

Perdi um amor.

Um tempo esquecido,

Interno de uma gaveta qualquer.

Depósito lotado,

Guarda-chuvas solitários.

Um desses atrevidos

Desvencilhou-se dessa opressão.

Guiado pelo vento

Girava em diagonal

Sob uma azulada manhã.

Céu leve de outono.





terça-feira, 24 de janeiro de 2017

MOINHO DAS BOCAS








Em um aqueduto equidistante

Percorri inúmeras eras.

Passional, resume o oco,

Buraco negro que engole

O mundo.

Triturando,

Moendo,

Moenda,

moinho

Formado por dentes.

Rodas espiraladas de caninos

Dentro de rodas menores

Formadas por caninos mais finos.

Rodamoinho de dentes

Triturando a carne,

Dilacerando

Pedaço por pedaço

O pretérito insólito.

Aquele que é preferível olvidar.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Um escritor trash que filma




       Assistir o filme “O peregrino” de Celso Marques é relembrar as empíricas e engraçadíssimas montagens da trupe Hermes e Renato da MTV.
      A modalidade trash, produzida pela trupe, trazia improvisos e cenas impagáveis de humor. Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão é o que bastava para esse pessoal. Não se fazia objeção no aspecto do improviso, não havia limites. Celso Marques, no seu particular processo autoral, desconhecendo essa técnica de fazer vídeo e cinema, obtem resultados similares.
      A história começa com um senhor em farrapos, mais precisamente um mendigo, que toca um violão de aço desafianadamente perturbador. Esse sujeito, um senhor, chamado Moisés de idade avançada, perturbado com o sucesso de ser cantor que não chega, sai de casa e não retorna mais, deixando mulher e filhos. A cena ganha fôlego com a entrada de Celso Marques, que interpreta irmão que procura consolar Moisés que está entregue a bebida, mendicância e venda de sucatas recolhidas na rua.
      Em seus devaneios etílicos, Moisés encontra-se na usina velha, ruinas de uma antiga usina de Dourados, cartão postal. Nesse local abandonado, Moisés depara-se com uma senhora peculiar, aparentando bem vividos 70 anos, com roupas ciganas, intitulando-se a “guardiã da Usina velha”.
      A “guardiã” fornece agua em uma bandeija para o esfarrapado cantor e em seguida faz uma benzedura estranha e bem humorada.
      Após essa benção, Moisés amarrado, surrado e lavado com uma vassoura. - Tentativa desesperada do irmão de salvar o desencaminhado.
O aspirante a cantor é trancado em um quarto escuro, com janelas sem vidros, comendo apenas uma vez por dia durante oito meses. Não aguentando mais ficar sob tais condições subhumanas, promete ao irmão que não irá mais catar sucatas na rua, gastar todo o dinheiro em cachaça ou vadiar.
      Na trama, o futuro cantor só era permitido sair do cativeiro amarrado como um cachorro pelo irmão (cenas hilariantes).
      Por sugestão do ator que interpretava Moisés tem-se cenas eclesiásticas e conversas tediosas de padres que ganham um tom sarcático na trama intuitiva de Celso Marques.
      Além de ser uma referência e registro histórico do município de Dourados, Celso Marques faz a sua literatura possível. Celso, que segundo o próprio, não tem escolaridade mínima para escrever um livro, publicou dois. Com filmes não é diferente, Celso deseja e realiza.
      A soma dessa vontade de participar no seu tempo, acreditar na sua arte e executa-la, faz Celso Marques ser a futura referência trash da cinematografia sulmatogrossence. Cinematografia desse diretor, produtor e distribuidor que tem a soma sete longas-metragens.
     Celso Marques normalmente vende seus filmes nos moldes cordelista, outras vezes, expoe seus filmes e vende os DVDs a preços acessíveis (atualmente R$10,00).

     “O peregrino” garantiu boas risadas no cineclube de Dourados.