Na acesa fantasia estou medindo, O doce amor que sentira um dia, No tempo que sobre asas, Leva-me incauto ao abismo.
De lá, observa-se um turbilhão de ideias. Alumbramentos desfigurados em visões, Onde não está anunciado o novo mundo, E sim, o mais puro papel em branco.
Isso mesmo! Um papel em branco onde gesto e reação Funcionam qual a pena, que destila letras, Nau singrando o mar das divagações.
Em dias de ressacas suas ondas Expõem o rochedo de minha razão, E ri, como um infante do meu ceticismo.
Procuro acreditar nas ciências, Nas entrelinhas do jornal. Que galhofa!
Ao tentar ser grande, e por ter sido sempre tão ínfimo, o vivente decai em sua angústia. Como ser grande? É a questão que lhe pertuba. Porém, o que o vivente não se dá conta - e, claro, ele não é mais do que uma vítima de um círculo de seus semelhantes - é que a pergunta que deveria incomodá-lo é: Por que tento ser grande? A resposta para essa questão ele tem na ponta de sua língua. Contudo, essa resposta é aquela que fizeram-no crer estar certa. Não. Ele não precisa ser grande então? Bem, quem sou eu para responder? Sou aquele que vê, observa e nada faz. Sou os olhos críticos da sociedade, ou simplesmente a consciência do nada. Você não conseguirá ser grande, é a minha conclusão. Tristeza? Escrúpulo? O mundo caga em você e você caga nele. Por que deveria ser diferente? Pois é.
Então, meu amigo, sobre você também pairou a lenda do amor? Percebo em seu sorriso e na sua fala ondas de luz e de som que parecem ter a força necessária para mover o mundo sem o auxílio de uma alavanca. Em verdade, amar, em si, é a alavanca que soergue o peso das dores e assoreia o maior dos temores: deixar-se amar; envolver-se na delicadeza e fragilidade da ferida exposta; por à prova o ego; esvaziar o peito, inflar a alma e perder a calma. Fico contente de ver suceder-lhe o que há de melhor: a surpresa inacreditável. Quando acreditávamos que a porta do paraíso fechara-se abrupta e brutalmente para todo o sempre, eis que, de novo, estamos vivos! Caríssimo, sei que sabe que lhe sinto como parte da minha parte, e que,portanto, não consigo sorrir sem lamentar a dor que percebo por não lhe ter compartilhando meu regozijo. Não raras vezes foram, nem o serão, que substituí sua companhia para estar na dela; assim procedo e procedi porque sei que sabe e entende, mesmo que por hora impossibilitado de compreender pragmaticamente, o feitiço envolvente e desbaratinador de amar; essa necessidade insaciável de estar unido que sobrepõe-se a tudo, inclusive às mais profundas amizades, que só quando realmente verdadeiras são capazes de compreender. Sim caro, por isso coloco que a amizade é de todo infinita, pois sabe sua infinitude e alimenta-se, mais do que tudo, da felicidade do sempre querido conviva. Todavia, mesmo quando longe, sinto perto seus sentimentos mais profundos, os quais estavam longe de serem os mais deleitosos. Entretanto, após o inverno tempestuoso que passamos perto, agora vejo brilhar ao longe os primeiros raios de sol de uma inestimável primavera mais do que propícia para você alçar voo, o voo da águia, o voo da renovação. Um voo maravilhoso e único, somente possível para essa esplêndida ave de rapina detentora da mais profunda sabedoria, idólatra da liberdade e eterna amante da mais bela e ousada coragem. Vejo com muito prazer sua silhueta esmaecer obstinadamente no belíssimo horizonte do amar. E lhe desejo de toda sorte minhas melhores aspirações. Não, meu velho, talvez não sejamos os últimos românticos, existem outros; mas talvez sejamos os últimos a cultivar a coragem de acovardar-nos perante a onipotência da força tão frágil do amor. Claro que amar não é como consta nos manuais folhetinescos, não nascemos dispostos, talvez predispostos, mas jamais, de pronto, aptos a amar. Não se ama sozinho, amar sem ser amado é flerte, e flerte é sedução; sedução, por sua vez, nada mais é do que o escape discreto e dissimulado de uma perversão intrínseca, quase sem emoção. Seduzir uma mulher é uma diversão agradabilíssima, é verdade que muitas vezes faz-se uma pratica pouco altiva, mas, ainda assim, podemos entreter-nos noites a fio a praticá-la. Mas lhe pergunto, áureo irmão, de tudo, o que fica, senão rememorações frias, estáticas e levianos blefes varonis? Se me permite, digo que mais acertadamente complementaria sua ideia da seguinte forma: sim, algo fica, fica o vazio sedento por complemento. E, diferentemente de antes,esse vazio não é preenchido com a companhia da solidão, mas somente com o calor de uma alma complementar , de um coração, de sentimentos, de pensamentos, de carinhos e, até, de ingênuos aborrecimentos. Características essas tipicamente humanas, assim como, de fato,enfim, sentimo-nos: humanos! Mas, caro amigo, infelizmente dessa vez o mérito não se restringe somente aos nossos feitos ou ao poder de nosso falo, o fator desencadeador esteve por todo esse tempo fora dos nossos domínios físicos, mas agora,finalmente, está, também, perante ti. Consigo perceber e identificar-me com seus atos inseguros, pueris, quase beirando a inocência. Sim, amigo, retrocedemos a um tempo de pureza extrema no qual sentimentos e atos involuntários coordenam nosso comportamento, levam-nos àquilo que somos: heróis quixotescos em busca de objetivos idílicos fisicamente realizados nessa utopia praticável que é o amar. Sem dúvida, irmão, vá em frente, exacerbe seus mais íntimos sentimentos, aflore suas emoções, deixe-se chorar de alegria e de medo; amar é um sofrimento transcendental que nos coloca em contato com nosso alter-ego mais fidedigno: nós mesmos, sem máscaras, nem armaduras. Amar outrem é a maior demonstração de amor próprio. Ame amigo! Se seus pressentimentos apontam-lhe um norte, mesmo que sem uma bússola, acredite, você estará no caminho certo. E, sem dúvida, encontrará mais, muito mais do que um pote de ouro atrás do arco-íris. Encontrará exatamente o que em seus sonhos mais íntimos sempre procurou exasperadamente: uma íris a lhe focar, cobiçando beijar e lhe sussurrando, ao pé do ouvido, todos os segredos mais profundos do incondicional prazer de simplesmente amar.
Tem horas que as horas que passam, passam sem sentido, sem sentimentos, sem serem sentidas, sem nada. O pranto abafado nas profundezas do peito sorri de alegria por saber não ser sabido, não ser querido, mas ainda sim, ser soberano. O corpo convulsiona no anseio de emoções baratas que possam trazer de volta o desconhecimento de quem se é, procurando não encontrar nada que diga tudo sobre nós. Dispersões e derivações quaisquer que mostrem o mundo profuso [dos outros] contrastante com a nulidade do nosso. Seguimos em frente, rumo ao externo, rumo [aos outros], ansiosamente desesperados, tudo em busca de um desejo natimorto de esperança, perseverança ou de voltar a ser criança, um óvulo fecundo no útero de uma vida a mais qualquer. Um aborto da natureza, uma leveza na tristeza, uma proeza sem destreza. Ser tudo, por ser nada. A tristeza não é triste, triste é estar feliz na desgraça anunciada de uma isolação na multidão. A falta de um abraço preenche o espaço que cinde a razão da emoção, a verdade da mentira, a pureza da imundície. Roupas alheias pelo chão e uma fragrância prendendo em teia no horizonte texturizado e colorífero uma visão atemporal, beirando o irracional por insistir em querer ser tão ambivalente, tão normal e tão habitual. Ciclos intermináveis, não querendo mais girar no mesmo lugar, sempre no mesmo e para o mesmo lugar, sem parar, sem parar, continuando a girar, a girar, a girar e voltar, de novo, àquele mesmo lugar, de novo, sem parar, sempre a girar no mesmo lugar – chega, por favor, quero descansar... Auscultar o silencio, silenciar o coração, encontrar a completude na mais simples atitude de ser não ser. Estar à parte das emoções, distante das tentações e cada vez mais perto de onde se esconde a imensidão de um oceano sem pretensões.
Existem momentos na vida em que viver já não é mais o objetivo objetivado, mas sim esquecer-se de que se está vivo e do que se viveu e se morreu até aqui. Entretanto, enquanto o coração ainda continuar a pulsar e o sangue a correr nas veias, a covarde pulsão de morte não adentrará a consciência. Então, nos deparamos com um rosto estranho no espelho de um banheiro qualquer: um rosto embriagado, entorpecido e decaído. Já não é mais belo, jovial, inocente, apenas descrente do futuro e do presente. Escondendo-nos em lapsos da consciência, apesar de ainda continuarmos substancial e fisiologicamente vivos, não estamos conscientes para perceber. Aliás, vivendo guiados pela subconsciência, a percepção de tudo e de todos é amena e intensa como um devaneio desvairado, colorido e altamente odorífero. A contradição nasce quando nos percebemos mais vivos e presentes do que, de fato, buscávamos estar. Mas, infelizmente, estamos em um presente que não nos presenteia com a dádiva da completude e da harmonia contínua. Estamos inquietos por insistirmos em sermos o que não somos e o que tememos nunca conseguir ser. A busca da vida intensa é a morte transvestida com uma capa de um anseio de liberdade infantil. Nesse tortuoso e infrutífero caminho de busca de nós mesmos, afastamo-nos cada vez mais daquilo que procuramos sem nem ao menos saber o que é. Estar livre é uma prisão arbitrária, inescrupulosa e com muitos requintes de crueldade. A identidade que nos prende e aprisiona em um nome, em uma vida, em sonhos, medos, forças, fraquezas, defeitos e qualidades não é um muro a ser derrubado ou transposto; mas um porto seguro para sempre ancorar e usar como ponto de partida para novas empreitadas pelos revoltos oceanos pacíficos da vida. Quando se nega ou se manipula quem somos, chegamos ao cúmulo da solidão, ao ápice da tristeza, ao abismo que separa o peso e a leveza. Quando nos deparamos com a voz e com os desejos de um desconhecido dentro de nossas mentes, nos percebemos esquecidos dentro de nós mesmos, perdidos em um universo hostil, comprimidos entre a verdade e a mentira, sufocados por todos os mundos desbravados por todos os nós que passaram a habitar essa bolha de ilusões que se tornou o nosso peito amargo. Aquele amigo que nos virou as costas quando acreditávamos mais precisar, ou que com rudes palavras nos fez chorar, talvez não tenha sido um inimigo a combater, pois estender a mão não é apenas um ato de ajuda, mas de aceitação, cumplicidade e aprovação. Ter uma mão estendida àquela entidade que se apoderou de nossa alma e mente é um apoio para galgar degraus rumo ao âmago do inferno existencial e vazio absoluto que nos depararemos quando chegarmos ao mais profundo de uma alma sem paz, sem identidade e sem um abraço que esquente o coração com o amor fraterno da compreensão de quem - por dentro da casca - ainda somos. Se aquele no espelho já não consegue mais sorrir e sentir a alma alegrar-se, é porque entre os olhos vidrados no espelho e o espírito depredado existe uma barreira esquizofrênica e intransponível que segrega violentamente quem não somos de quem não queremos ser. Esse conflito entre os dois que não somos gera quem passamos a ser: um subconsciente inane, um corpo sem sentido que como única meta tem o flutuante e sempre distante objetivo de recuperar-se, definitivamente, do cada vez mais constante torpor. Viver entre a euforia e a depressão não é a liberdade da vida, mas a morte lenta e constante do ser pujante que um dia transbordou dos olhos de quem, um pouco mais a cada dia, menos conseguimos sentir dentro de nosso imo.
Não destrua o que já não resta mais do que você nunca foi; não cubra a vida com a morte. Entre ser quem não se é, e não ser nada, é preferível não ser nada. Todos os caminhos que nos guiam rumo ao infinito sempre são caminhos passíveis de serem trilhados de maneira amena, correta e harmoniosa. Podemos iniciar uma nova jornada a cada manhã, com pequenos passos rumo a uma pequena tranqüilidade e, assim, pouco a pouco, distanciarmo-nos de uma ficção delirante, que só se torna confortante quando se está no cume da despersonalização, e, dessa forma, dissolvendo no vazio toda possibilidade de lembranças verdadeiramente aprazíveis e reconfortantes, dignas de serem rememoradas e enunciadas pelos intermináveis ciclos da vida eterna e perecível.
A salvação não está no mundo, mas no mudo olhar de quem consegue ver tudo mudar sem perder a paz de sempre estar como um todo no mesmo lugar.
Nem tudo é para se dizer nesse mundo,
Existem coisas que devem permanecer ocultas.
Caminho adentrando vertigens de nostalgias
Como se percorresse
O caminho de minha morte anunciada.
Como se fosse entrar em um estado
De absoluto esquecimento.
Não existe morte!
Existe esquecimento.
Que são os versos,
Se não passagens do esquecimento?
O vento passa e arrasta as lembranças
Como os rastros das estradas.
Procuro o não-lugar,
Longe do segredo que oculta
A graça da recordação.
Quando se morre,
Começa o esquecimento.
Esqueço de quem fui.
Esquecem o que fiz.
Esqueço de quem fez.
Comungo com os sais minerais
Em um nivarna microscópico,
Entornando o húmus
Que ira alimentar a vida
Dos que ficam.
Aqueles que não lembro mais.
O amor é volátil, assim como o cheiro se dispersa pelo ar, pelas escadas, salas e dormitórios. Quando sentimos nossas roupas, pelos e pele embebidos no cheiro da pessoa amada é como se a presença ausente já não fosse mais solidão, mas uma perpétua união de saudade. A imaterialidade contundente do cheiro é o par análogo perfeito do amor. Não precisamos ter a pessoa para senti-la; não precisamos tocar suas curvas e boca para sorvermos o prazer indizível da completude lacerada. E o mais importante, não podemos de toda verdade afirmar não estarmos em sua presença, pois o cheiro é a extensão concreta e palpável do corpo. Cada fragrância é uma impressão digital marcada na tez, que lava consigo mais do que o espírito memorável do ser amado, mas traz o corpo denso, único e capaz de pegar-nos pela mão e levar-nos a um passeio, a um jantar ou a um delírio idílico de um amor dionisíaco. Só quem ama sabe. Ter em seu corpo o cheiro da pessoa amada é ter sobre seu corpo o corpo despido do seu amor. Sem roupas e sem máscaras, apenas, e mais do que tudo, em sua essência pura e imaculada. Essa presença volátil que domina sem prender faz-se onipresente, adentra as narinas e instala-se na alma, no âmago de um coração apaixonado que com sublime paixão sublima o amor, eleva o espírito, transcende o corpo e encontra o infinito no segredo desvendado do amar.
Em um dos parques mais representativos da cidade gaúcha, Porto Alegre, firmou pousada o morador de rua com nome complicado: André Boardman Malet, homem branco, queimado pelo sol, com cabelos rasos e grisalhos esparsos. Apesar do tipo físico magro e aparência maltratada devido aos anos de trabalho árduo como papeleiro, a voz mansa e os movimentos contidos transpareciam uma simpatia e irreverência cativantes.Quando o abordei para perguntar se ele importar-se-ia em conceder uma entrevista, André gentilmente guardou a revista “Isto É” que estava lendo, encontrada em um dia de trabalho, e, então, prontamente começamos a prosa.
Guerra – Quantos anos você tem?
André – Eu nasci em 71 né, então...
Depois das contas – e algumas dificuldades matemáticas tanto do entrevistador quanto do entrevistado – chegamos à conclusão de trinta e oito anos, um ano menos que André pensava. Após esse rejuvenescimento, ele animou-se a tomar um dedinho de sua “cachacinha”, companheira inseparável na solitária vida desprovida da possibilidade de sonhar.
André – Aqui a cachaça tu tomas mais porque a questão não é só descansar um pouquinho, mas é porque o corpo tá precisando mesmo. Daí chega a hora de dormir e tu dormes mesmo, curte aquele sono. Às vezes meus olhos enchem de água pensando na minha família, nos meus parentes que não são legais comigo. Mas daí eu tomo a cachaça, e vai passando o tempo, tu vais ficando meio zonzo, daí tu comes a comida, deita um pouco e descansa. Porque de “carinha” é brabo, sem tomar um trago, é brabo. Tu não consegues encarar a vida, não por uma derrota, porque eu não tenho culpa de vir da onde eu vim, mas porque é brabo mesmo.
Guerra – Você mora na rua?
André – Eu moro na rua. Quando minha mãe e eu viemos para cá, ela foi fazer uma faxina e arrumou um outro namorado, daí nasceu meu irmão. Minha família é muito rígida. Então a escorraçaram de casa e ela juntou-se com o pai do meu irmão, mas ele era muito ruim, batia nela, batia em nós. Ela não aguentava ver isso, então se matou. Depois que minha mãe se matou eu fui morar com a minha vó. Mas daí, um tempo depois, ela morreu e eu fui morar com meus tios que têm uma marmoraria. Eu trabalhava lá, mas eles me tratavam muito mal. Eu tinha que levantar às sete e trinta da manhã e trabalhava até às oito horas da noite quebrando pedra. Eu não ganhava nada, era horrível. Todos os outros caras que trabalham lá ganhavam duzentos e cinquenta reais por semana, com todos os direitos. Comigo era diferente, eu só ganhava alguma coisa quando sobrava troco do supermercado. Bah, era horrível, quebrei todos os meus dedos derrubando pedra em cima, agora eu prefiro trabalhar como papeleiro. Se eu quiser trabalhar lá eu posso, mas tem que ser de graça; tem trabalho, mas só se for de graça. E isso me dói o coração. A minha vida foi braba, foi terrível; por isso, desde que eu comecei a morar na rua, não senti impacto nenhum. Às vezes eu tenho vontade de comer um doce, eu paro na frente da confeitaria, escolho o doce e como. Esses dias eu até me ralei, me cobraram cinco reais e pouco por um potinho de doce, mas era uma coisa que eu tava com vontade de comer, eu tinha dinheiro, então fui lá e comprei. Antes eu ficava vendo de longe meus primos comerem. Eu me lembro no Natal todo mundo ganhando presente e eu não ganhando nada, isso corta o coração. Bah, se eu chegar lá e pedir um lugar pra dormir, eles dizem para eu ir me acertar com os cachorros. Mas nem por isso eu me tornei um ladrão, um bandido, sou um cara trabalhador.
Guerra – Você já foi para algum albergue?
André – Não, porque não tem onde deixar o carrinho. Se tivesse, com certeza eu iria. Já tentei ficar em pensão, mas lá tem roubo. Eles prometem que ninguém mexe no teu carrinho, mas de noite roubam tudo.
Guerra – Você consegue manter-se com a sua profissão?
André – Claro, eu consigo. O carrinho dá pouco, tu te ralas e dá muito pouco, mas se tu não gastares o dinheiro em outras coisas, sempre sobra um troquinho para guardar: três, quatro, cinco reais por dia, até dez, dependendo da viagem. Até porque tu tens que ter um dinheiro para gastar com graxa, com um reparo ou outro no carrinho.
Guerra – Como é no inverno?
André – Ah, o inverno é terrível. Se tu ganhares dez “pila” hoje, tem que comprar farinha e álcool para fazer bolinho. Porque é dois, três dias chovendo, e tu socado dentro do carrinho, só comendo bolinho. E aqui já não dá para ficar, tem ficar mais lá para dentro, perto do estaleiro, porque lá é um lugar mais retirado, aqui não dá. Tu não vais ficar o dia inteiro dentro do carrinho, a SMAM vem na hora, te enfia dentro do caminhão e te leva. E se eles deixarem, amanhã tem quinhentos. Então no inverno é brabo, molha uma roupa tem que colocar fora. Tênis então, às vezes tem que trabalhar com os pés descalços, dando com a ponta dos dedos nas pedras. Bah, deus o livre, no inverno é terrível.
Guerra – O que você pensa a respeito da polícia?
André – Eu gosto da polícia. Os brigadianos, podes ver, tu estás conversando comigo, eles passam aqui na volta e não vêm. Vieram uma vez pedir documentos, eu mostrei meus papéis, ele “radiou”, viu que estava tudo certo, e foi embora. Há muitos anos me pegaram fumando um baseado,foi só esse meu problema com a polícia, nunca mais. Tem policial corrupto, mas é a exceção. É que nem na minha profissão, quantos papeleiros ladrões têm por aí. Pra mim é bom a polícia por aí, podia até ter um pouco mais.
Guerra – Algumas pessoas reclamam da violência desnecessária da polícia, isso nunca ocorreu com você?
André – Tem uns guris que são meio abusados, da Guarda Municipal também. Um outro dia, o brigadiano chegou, conversou comigo dizendo que eu poderia ficar dentro do parque, mas que o carrinho deveria ficar na rua. Eu concordei e saí. Depois me disseram que onde eu estava os caras vendem drogas. Mas o guarda municipal disse: “oh se eu te pegar ali dentro, vou te botar pra correr”. Olha cara, ninguém chegou e disse que iria me dar um salário, um emprego, um lugar direitinho pra dormir. Se oferecessem, eu largava meu carrinho agora. Eu não estou aqui por opção, nem por esporte. Sou obrigado a estar aqui, não tenho outra opção. O que eu mais queria era poder chegar de noite em uma pecinha minha, me deitar, ter meu lençolzinho limpinho. Poder lavar a minha roupa. Poder ter meu serviço direitinho, cumprir a minha hora e ir para casa, fazer minha comida. Se eu tivesse uma oportunidade, claro que eu iria largar isso e não iria atrapalhar mais ninguém na rua.
Guerra – O que você pensa quando olha um carro importado na rua?
André – Ah, um carrão bonito é de um empresário, alguém que estudou desde pequeno, que teve condições de estudar. Ou é de um cara que teve um pouco mais de sorte, lutou bastante e conseguiu. Ou é de alguém que tem uma firmazinha e tirou crediário, porque se tu tens uma firma, tem um endereço, tem uma casa, eles te ajudam. Ou às vezes já vem de berço mesmo.
Guerra – E você acha justo isso? Alguém ter um carro que valha mais do que todo o dinheiro que você irá arrecadar durante a vida toda?
André – É, daí só se assumisse aquele governo em que seria todo mundo igual. Eu não sei qual é o governo, não sei se é aquele da foice, que tinha o martelinho, mas disseram “oh vota neles que se eles assumirem vai ser todo mundo igual, não vai ter aquele negócio de desigualdade”. Acho que se eles assumissem ajudariam um pouco a gente. Porque se esses caras que têm carrão de não sei quantos milhões dessem um pouquinho para ajudar, já resolvia. Mas daí teria que fiscalizar bem fiscalizado, porque esses negócios de cooperativa é o maior "assanho" de tráfico. Tem que fiscalizar para que o cara dê tanto pra ajudar fulano, ajudar beltrano e ajudar mesmo quem precisa. Fazer a casinha direitinha para os caras, mas pecinha pequena, não casarão, já que estão dando uma força. É uma casinha para o cara poder trabalhar, sete e meia da manhã, oito horas tem que sair, ir trabalhar, e poder voltar de novo. Em seis meses, um ano tem que aparecer o progresso, o cara tem que estudar, porque daí se verem que ele está estudando, está se interessando vão dizer: “continua ajudando ele”.
Guerra – O que você acha da política?
André – Vou ser bem sincero contigo, eu não entendo muito disso. Eu acho uma corrupção, uma pouca vergonha. Eu não me animei mais a votar. Tenho vergonha de dizer que sou brasileiro. Tu os coloca lá, e eles só pensam neles mesmos. Se eles ganhassem um pouquinho menos, já ajudavam mais o pessoal de rua, e diminuía os moradores de rua. Tu queres ver, esses dias eu me apavorei, com o salário de um mês de um deputado eu vivo um ano, acho que mais de um ano, porque eu vivo três, quatro dias com dez reais. Eu vivo, com certeza, mais de um ano; compro minha erva de chimarrão, e vivo mais de um ano, e vivo bem; pelo amor de deus, vivo bem mesmo. Acho que vou trabalhar a vida inteira e não vou conseguir ganhar o que eles ganham em um mês.
Guerra – Que sugestão você daria para mudar essa situação?
André – Se eles pegassem esses drogados que andam com sacos nas costas, com “alicatões” dentro para roubar carro, atrás de pedra para fumar e de coisa assim, se eles pegassem todos e fizessem uma triagem, porque eles têm mais cabeça que eu, então eles têm como saber quem quer mudança e quem não quer. Se o cara não quiser mudança, então pega o nome dele e registra, se a Brigada pegar ele roubando, leva para outro lugar, tira ele de circulação para não ficar atrapalhando quem está trabalhando. Aquele que quer mudança, se estiver interessando, se estiver ajudando lá dentro também, então ganha uma força. Eu sou um que aceitava a mudança na hora.
Guerra – Você sente-se como se a cidade não fosse sua? Como se você não pertencesse à cidade?
André – Têm muitos lugares que as pessoas te olham com cara de nojo. A sociedade tinha que mudar. A pessoa que lutou, que estudou, que está no patamar que está, que tem condições psicológicas de entender o que é um carrinho na rua tem que saber discernir um ladrão de um trabalhador. As pessoas tinham que saber “aquele ali tá trabalhando, então não vou chingar ele”. Tem um senhor que passa aqui com os cachorros dele, e os cachorros vêm pertinho de mim, abanam o rabinho e tudo, mas o senhor grita com eles, para eles saírem de perto de mim. Uma vez eu até tentei cumprimentar o senhor, mas ele nem bolas deu, olhou pro outro lado. Os cachorros são mais humanos, por isso que eles vêm aqui. E outra, querem fechar a redenção. Ninguém mais vai poder entrar, só os “burga”, só quem tem condições. Quando vês, estaciona um bom carro, o cara coloca uma rede e fica bem à vontade. Mas nós pobres, eles vão expurgando.
Guerra – Além daquele baseado, você já usou outras drogas mais pesadas?
André – Maconha eu já fumei umas quantas vezes, e já experimentei Crack uma vez, logo que saiu, mas não gostei, porque o cara fica meio estranho, ele olha diferente, parece que alguma coisa acusa na consciência, é uma droga desgraçada mesmo, não vale à pena, deus o livre. O que eu gosto é de tomar cerveja. Bah cara, uma “Skol” de latinha, geladinha. Olha, eu compro doze geladinhas. Os caras se apavoram, mas eu digo que se eu for comprar duas garrafas esquenta rápido, então eu vou lá um dia antes, pago metade adiantado, e peço paro o cara reservar para mim. Mas isso só no final de semana, porque nos dias de semana eu tomo cachaça, mas não é sempre, eu tomo de manhã um pouco e de tarde o resto. Eu não tomo direto, porque depois, conforme a idade, gasta as veias por dentro, daí não vale à pena.
Guerra – O que você pensa do papel dos universitários? Você acha que eles querem fazer algo para mudar, ou já estão acomodados à forma do sistema?
André – São o futuro do nosso país, cara. A gente não pode julgar eles pelos corruptos que estão lá em cima, vamos apostar. Claro que não vou dizer que de quatro, cinco não vai sair um que vai se juntar aos corruptos. Mas tem muita gurizada aí que está com vontade de mudar, de ver os problemas.
Guerra – Você acha que se o governo lhe desse apoio você poderia mostrar seu valor e contribuir para sociedade?
André – Acho que eu poderia me integrar para a sociedade, porque eu me considero um excluído, abaixo da sociedade. Se o governo me apoiasse em estudar e em ter um serviço, eu iria me integrar à sociedade. Porque assim eu estou dependendo do lixo da sociedade para sobreviver, da sobra deles. Se eu tivesse o apoio do governo, com certeza eu mudaria de vida. Bah, olha, o primeiro que chegasse com uma proposta de um lugar para eu dormir, para poder ter as minhas coisas, um serviço, estudo, aceito na mesma hora, não penso duas vezes.
Guerra – Você acha que a solução é educação ou polícia?
André – Não adianta só colocar polícia na rua a dar pau nos cara. O que adianta vir um brigadiano agora aqui e pegar meu carrinho e me botar pra correr? O governo não está dando chance de eu progredir. Se o cara está na rua e não tem um pensamento abençoado por deus, cai na vida do crime, das drogas. Fuma maconha e crack toda hora. Então, colocar polícia na rua até pode tirar eles, mas tem que dar uma chance para mim. Para apertar tem que dar uma chance para nós. Eu quero mudança, eu quero mudar, eu quero sair dessa vida, mas se eu não tiver um apoio, não tem como. Antes de apertar, tem que estudar um esquema de pegar os drogados e levar para uma clínica ou para uma chácara e botar a trabalhar. Dar serviço para quem quer mudança. Separar o trigo, se me oferecessem eu iria agora, e comigo iria mais um monte. Em qualquer emprego, desde servente de obra até limpar pinico de hospital. Qualquer coisa é melhor que isso aqui. Olha cara, tem horas que eu fico sem couro na bunda de tanto caminhar, tenho que ficar tocando “Maizena”, pomada não adianta, e daí já são quatro reais e pouco. Se o governo me desse um apoio, eu com certeza iria aproveitar. Eles estão ajudando um pouco, mas esse pouco não está ajudando muito. Tanto é que tu podes ver a bagunça que está isso. Quantos roubos têm nessa Redenção. Olha cara, se me oferecessem apoio, eu não sei, mas acho que se eu não parasse, eu diminuía a cachaça.
Guerra – Quando eu cheguei você estava lendo uma revista, até que série você estudou?
André – Até a quarta. O meu maior sonho era estudar, desde pequeno. Mas quando a minha mãe se matou eu fiquei com problemas psicológicos. Então eu fiz tratamento de três anos e pouco no hospital psiquiátrico São Pedro. Fiquei muito tempo lá, um ano e pouco. Quando voltei a estudar, no mesmo colégio, a professora leu o bilhete que mandaram do hospital para a diretora na frente de todo mundo. Daí todo mundo começou a me chamar de louco, e eu criancinha, né cara, os alunos todos me chamando de louco e me dando tapa na cabeça. Eu coloquei as mãos na cabeça e tive que sair chorando. Bah, aquilo ali me deixou irado. Nunca mais voltei para a escola.
Guerra – Qual o nome da professora?
André – Professora Rilda, eu nunca mais me esqueci do nome dela.
Guerra – Sabe o sobrenome dela?
André – Não lembro.
Guerra – E o nome da escola?
Baependi, no bairro Glória.
Guerra – Um sonho de infância.
André – Bah, meu maior sonho era estudar e ser um policial, policial rodoviário, por causa das motos. Bah, hoje se eu tivesse condições de arrumar um lugar para dormir, trabalhar e poder estudar duas, três horas de noite, eu estudava. Eu fico triste de não ser ninguém, tenho vergonha de mim. De ir visitar um parente e ser humilhado por eles, por ser um fracassado.
Guerra – O que você pensa estar fazendo daqui a cinco anos?
André – Bah cara, vou ser bem sincero contigo, eu estou desiludido, eu não vejo futuro para mim. Só se eu tiver o apoio de alguém que me dê um emprego. Porque no carrinho tu ganhas hoje e amanhã tu estás morto de cansado, daí tu não consegues fazer o mesmo serviço, então o que tu ganhas hoje, gastas amanhã. Hoje eu achei comida, tenho vinte e três “pila” guardados, mas se amanhã eu não achar comida, vou ser obrigado a comprar.
Depois de mais de uma hora e meia de conversa, despedimo-nos. Ele mais leve de ter podido desabafar as lástimas de uma vida vivida sem vida; eu com todo o peso de uma responsabilidade social irresponsável. Que país é este em que uns vivem de luxo, e outros de lixo? A desigualdade é um fato, mas e a indiferença? Dar voz ao lixo não basta, enquanto a reificação dos marginalizados for a atitude confortável predominante, todos os gritos dos oprimidos serão abafados pela surdez estúpida do sistema.
O assunto sobre o sistema elétrico no Brasil não está dando o enfoque que a oposição e a mídia marrom queriam. Ao sair nas ruas, ninguém comenta entusiasticamente sobre o apagão como fazem com o futebol ou a copa de 2014. O governo e técnicos do setor elétrico não têm explicações plausíveis sobre o incidente, especialistas de plantão como Mirian Leitão (Ou Mirian Porcão como diz Zé Simão), colocam a culpa na Dilma, que já deveria saber a causa do Apagão. -Porque a ministra não ligou para o Walter Mercado? Comentaristas como Mirian Leitão, Arnaldo Jabor e outros, são especialistas na vastidão dos assuntos, conversam de cocô a bomba atômica com empáfia de um PHD. É absurdo dizer que foi o maior apagão da década como proclama o jornal o "Estado de São Paulo", Revista Veja, toda a impressa burguesa e os especialistas acima citados, devido às proporções que ocorreram nos oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso. Ontem (11/11/2009), o jornal da Globo dedicou-se inteiramente ao assunto "APAGÃO" tal qual fez com o "CASO ISABELA". No decorrer do jornal, haviam explicações desenhadas dignas de um telecurso,dados ,estatísticas dos prejuízos causado pelo apagão, dono do boteco que não pôde vender cachaça gelada, patricinha no Shopping que foi no banheiro cagar às escuras,velha que tem medo de lobisomem , dona de casa que estragou a carne moída e finalizou com o senador Artur Virgílio do PSDB exigindo explicações como se o maior apagão não fosse no governo neoliberal do PSDB. Se o povo não fosse tão despolitizado, esse acidente poderia comprometer a campanha de Dilma em 2010, afinal, o governo não sabe o que houve no sistema elétrico, o que é lamentável. Agora, partidarizar um tropeço técnico, relembra os tempos do debate editado de Collor x Lula. Se o leitor for atento, perceberá que o PSDB, DEM (ex - PFL não se esqueçam) e o restante da oposição, não tem projeto para as próximas eleições, restando-lhes se apegar em factóides para fomentar uma melhora na já derrotada candidatura de Serra. Aécio Neves quer ser presidente como o avô, puxando mais para baixo a candidatura do vampiro. Resta-nos esperar e rir da propaganda pró-PSDB da rede Globo
Partindo-se do pressuposto que para ser ético devemos nos basear fundamentalmente no princípio da igualdade para com nossos semelhantes, também devemos supor que esse princípio faça-se valer para com os animais não-humanos, tendo em vista que eles, assim como nós, têm a mesma capacidade de sofrer, isso implica que eles têm interesses, diferentes, mas não totalmente diversos dos nossos. Sendo assim, o homem, no momento em que exclui os animais da condição de igualdade, o faz de forma irrefletida e antiética, por desconsiderar os interesses de seus, também, semelhantes.
Em uma escala mais ampla, ao permitir que os homens possam se eximir da responsabilidade ética para com os animais, adotam-se as mesmas premissas que permitiram aos europeus usurparem a liberdade individual dos negros. Tanto a relação dos europeus para com os negros, quanto a da espécie humana para com os animais é estabelecida fundamentada em princípios do especismo.
Não existe alegação suficientemente embasada que possa atribuir direito aos humanos de fazer o que bem entenderem com os animais não humanos, caso contrário fosse, deveríamos concordar com práticas nazi-fascistas, pois tanto estas como aquelas se valem de princípios que resultam no especismo para validarem suas práticas. Ou seja, a questão social, assim como a ambiental é tratada a partir de um viés insuficientemente elaborado nesses casos, pois as suposições que levaram os europeus a vilipendiarem os negros e os nazistas a perseguirem os judeus em nada diferem das que hoje legitimam a soberania da sociedade humana sobre as outras inumeráveis sociedades de animais não humanos: a desvalorização completa e absoluta dos interesses de outrem.
Indubitavelmente, o sofrimento dos humanos e dos animais não pode sempre ser depreendido com base em um mesmo ponto de vista, pois ambos têm características peculiares que alteram a percepção dos fatos correntes, tornando o sofrimento ora mais árduo para um, ora para outro. Como exemplo, poderíamos trazer a ideia da morte que, até onde sabemos, é entendida de forma mais profunda pelos humanos, os quais, em determinadas situações, podem melhor compreender que seu falecimento é ou não iminente, o que lhe causaria mais ou menos apreensão, diferentemente do que ocorre para um animal colocado na mesma situação. Por exemplo, há a possibilidade de esclarecer a um homem que após certos procedimentos hostis ele será liberto ileso. Isso faria com que a pessoa que vivenciasse essa experiência sofresse o impacto psicológico e talvez físico, mas, de qualquer forma, saberia que sairia ileso, fator que lhe atribuiria um significativo conforto. Em contrapartida, um animal colocado em situações semelhantes sofre muito mais, pois, para ele, um procedimento hostil significa a morte. Não há como explicar para um boi que está prestes a ser marcado com o ferro em brasa, ou para um touro de rodeio que seu sofrimento será momentâneo.
É claro que em outras ocasiões podemos obter a situação inversa: o homem sofrendo mais do que o animal. Podemos pensar em uma doença terminal e incurável. O animal, mesmo tendo suas funções cognitivas ou motoras alteradas, talvez não chegue à hipótese de que sua morte se anuncia. Diferente de como ocorre com os humanos. Destarte, o conflito psicológico que se abate sobre os animais humanos causa mais sofrimento. Contudo, para que práticas experimentais sejam legitimadas em animais, levando-se em consideração esse aspecto, considerar-se-ia que o fato de não se ter consciência de seu próprio bem-estar pleno permitiria que aqueles que têm consciência subjugassem os que não a têm. Então, seguindo essa linha, chegaríamos à conclusão da permissibilidade de práticas experimentais em crianças recém-nascidas com deficiências mentais, ou idosos acometidos por graves doenças degenerativas. No entanto, por certo, essa opção soa absurdamente inviável para a maioria das pessoas. Todavia, há de fazer-se um exercício de reflexão: quais fatores palpáveis indicam a cabal ilegitimidade desses procedimentos? É, pura e simplesmente, a igual consideração de interesses; no entanto, a partir de um viés especista, porquanto essas práticas somente soam absurdas quando dirigidas a seres de nossa mesma espécie. É claro que a desconsideração da equidade de interesses também pode se aplicar a seres da mesma espécie, nesse caso teremos a ascensão de outro conceito: o racismo. Ou seja, nós humanos, em tese, rejeitamos completamente métodos hostis que degradam pessoas, pois consideramos o nosso interesse em não sermos degradados tão digno de respeito quanto o dos outros humanos (membros de nossa espécie), mas descartamos totalmente o interesse dos animais não humanos de não quererem ser degradados, pois não atribuímos aos interesses deles o mesmo valor que aos nossos. Porém o limiar que separa a visão especista da racista é muito sensível e, em muitas vezes, pode tornar-se indissociável.
Tanto um especista como um racista valem-se dos mesmos subterfúgios para verem legitimadas suas condutas: as diferenças.No caso do especista, o que está em seu escopo são formas de assegurar as teorias arcaicas que afirmavam os animais como seres desprovidos completamente de sentimentos ou capacidades intelectuais superiores. Da mesma forma, o racista, em uma época em que a religião sobrepunha-se aos demais interesses, afirmava que os negros eram desprovidos de alma, fator, segundo eles, capaz de justificar a escravidão.
Após todas as teorias modernas a respeito da evolução animal, das quais a de Darwin foi o maior expoente, tornou-se claro o absurdo cometido tentando-se impor diferenças relevantes entre os animais humanos e não humanos. Porém, a discriminação ainda persiste baseada em pressupostos errôneos com a única e exclusiva finalidade de manter a confortável posição dos humanos com seus hábitos luxuosos de alimentação, estudo e estética.
O que há de se esperar para uma ulterior radical mudança é a conscientização de que todos os animais têm interesses e o mesmo direito de não serem usurpados de sua liberdade ou de sua vida. No momento em que admitirmos que os nossos interesses supérfluos de alimentação, estudo e vaidade não podem se sobrepor ao direito natural à vida digna, perceberemos que esse choque de interesses não podem mais suscitar discriminações ou argumentos que corroborem tais atitudes, pois o que torna o homem ético é ter uma visão ampla e equitativa das conjunturas que o rodeiam. Apoiar insossamente dada circunstância simplesmente porque se está inserido nela e em uma posição favorável é correr o risco de ver o jogo virar, e passar de caçador à caça.
O tribunal de justiça do Distrito Federal manteve ontem a decisão que impede o jornal “O estado de São Paulo” de publicar notícias sobre a operação ‘Boi Barrica (rebatizada de Faktor)-, investigação da Polícia Federal cujo principal alvo é o empresário Fernando Sarney, filho mais velho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).
Com a decisão de ontem, não cabe mais recurso ao Tribunal de Justiça do distrito Federal.
O que o jornal quer passar aos seus leitores, é que o estado, sendo mais preciso, o PT (Ptêee segundo os direitistas),"instrumentalizou" a justiça, coisa que não procede devido aos embates que ocorre entre o ministro Gilmar Mendes e o governo.
Repilo a censura na imprensa, porém divulgar supostos fatos sem o aval da justiça é achincalhar com a imagem alheia.
Nunca defenderei a família Sarney, que me parece uma co-irmã da família Magalhães na Bahia.
O jornal “O estado de São Paulo” não é o veículo mais adequado para ser o bastião da verdade acima de tudo.
Como sabemos já começou a corrida eleitoral, os jornais já estão apostando suas fichas.
O jornal “O estado de São Paulo” já fez sua primeira aposta. O PSDB.
Será que irá declarar em seu editorial ?
Só veículos responsáveis fazem, como a revista CARTA CAPITAL.
Poeta! Observa as estrelas Polvilhadas em um céu infindo. Tal qual os flocos de neve dos anos Que desponta em sua vasta cabeleira. Quem diria? Você futuro de ontem, passado do futuro, Ausente no presente. Há poeta! Quantos endereços? Quantas culturas? Quantos amores platônicos? A cornucópia dos iletrados Escarnece de seu ofício, Suas pífias letras, obsoletos versos E um vasto coração. Lastro do moderno e do antigo Mergulhado com sutilezas, safadezas, Destrezas e tristeza que estava Selado, Script ensaiado Nas linhas de suas mãos. O gato que ri de Alice, Já foi preto e tinha uma forca desenhada no pescoço. O contista foi encontrado morto no esgoto. Até hoje ouço o seu corvo, Que era o mesmo de Berger. Ele gritava: Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais!
Podemos traçar uma linha cronológica que se inicia na Idade Média com a Música Clássica, passa pelo Jazz, pelo Blues, chega no Rock ´n Roll e, finalmente, termina no Rock. Entretanto, até o Blues, as nomenclaturas eram bastante contemplativas em relação ao produto sonoro produzido. Ou seja, não se precisava ser um expert para facilmente discernir e denominar uma obra Clássica, um Jazz ou um Blues. Mas como dizer o que é Rock, Rock ´n Roll, ou um estilo ulterior qualquer? É exatamente essa a atração sublime do estilo musical que se tornou modo de vida das gerações adolescentes que vieram e ainda estão por vir.
A Música Clássica - além de sua beleza universal e inconteste – classifica-se pelo seu rigor formal e sua técnica impecável, tornando-se um estilo restrito àqueles que podiam pagar pelo estudo diferenciado.Mais adiante, a ambição humana pelo ritmo embalado, em detrimento das notas firmes da Música Clássica, e por instrumentos e técnicas mais acessíveis a um público menos elitizado fez surgir o Jazz, que, grosso modo, pode ser entendido como uma Música Clássica marginal, combativa e destrutiva. Um estilo que, em meio a fusas e semi-fusas, abriu espaço à improvisação, a partituras nem tão perfeitas – e por isso tão perfeitas -, aos instrumentos simples, à voz humana – não como complemento, mas como parte integrante -, aos erros, às angústias, aos anseios; enfim, o Jazz abriu espaço às características humanas, antagônicas ao desejo transcendental divino da Música Clássica.
Mas, mesmo tendo todas essas características reacionárias em seu cerne, era inegável a origem metódica do Jazz, proveniente de uma simbiose com Música Clássica. Então, em busca do som “natural”, mais uma cisão, dessa vez os elementos afro foram incorporados com mais força, tornando o ritmo e a melodia os elementos principais do novo estilo, indescritivelmente humano. Assim surgiu o Blues.
Com o Blues, a música deixou de ser algo feito de fora para dentro, a partir dele, a técnica não demonstrava a emoção, mas o inverso: a emoção e a sensação é que guiavam a técnica. Os sentimentos, a seu bel-prazer, é que coordenavam a ordem dos acordes, dos tons e dos timbres, através de improvisações e ritmos com muito feeling. Nesse meio de liberdade e originalidade é que a uma nova transformação deu-se o nome de Rock ´n Roll. Daí para diante, a música deixou de ser apenas música, e passou a ser um estilo de vida, uma válvula de escape às mazelas da monotonia moderna. E para alcançar este objetivo: a libertação, tudo se torna válido. A importância deixa de ser o como fazer, mas sim o que fazer. E essas características transcendem o puro fazer musical, e são incorporadas ao modo de pensar e agir daqueles que passam a apreciar o novo estilo que tem o poder de explodir todas as concepções conservadoras e limites impostos.
O Rock dá vida nova à vida, mostrando o outro lado da moeda. Apoiados no novo estilo, todos são capazes de tudo, e a lei de ordem é não ter ordem; as proibições são proibidas e a destruição confunde-se com a mais bela estética da criação.
Há muito as opiniões das massas vêm sendo fustigadas por ideologias arraigadas: direitismos e esquerdismos afins. O espaço Psicodelia Sarcástica surge com a intenção nobre e explosiva de detonar os princípios basilares que sustentam encéfalos calejados de moralismos e opiniões pré-concebidas; revitalizar o inconsciente coletivo que insiste em vomitar virtudes arcaicas, obsoletas e deturpadas as quais obstruem o fluxo das ideias necessárias à reestruturação da sociedade caótica do século XXI. Não queremos vender ideologias, tampouco críticas infundadas. Pelo contrário, somos a antítese da esquerda e repudiamos a direita. Temos um caminho à parte, entretanto jamais indiferente. Através da música, literatura e opiniões corrisivas, pretendemos cultuar um jornalismo informal, despojado e, acima de tudo, sarcástico. Não conhecemos a censura ou o pedantismo. Somos cruéis e piedosos. Não somos os donos da verdade e não somos escravos da mentira. Vivemos com a mente aberta, sem receios ou obsessões. Vivemos para viver e para informar, vivemos uma psicodelia sarcástica. Seja bem-vindo ao fantástico mundo das ideias, onde a sua opinião sempre faz sentido! (Guerra)
"Crianças lunáticas,civilizações tão trágicas"*¹ A poesia ,música,cinema e outras artes nunca estiveram tão juntas quanto hoje. -Mas o que é arte? Pergunta o ávido estudante. A resposta não estará aqui;sinceramente não estará em lugar nenhum. Ela está em você! Se você adora as novelas que lhe mostra um “mundo de Alice”,azar o seu. Aqui como diz Tom Zé: -Viemos para complicar não para explicar! Se gosta de pensar: Seja bem vindo. Se és um retrógado direitista: Ninguém lhe chamou aqui! (KBÇAPOETA)
CESURA PARA CENSURA
-
Pode ser meu eu,
Na luz do que sou,
desvelando ser,
revelando ter
Imaginação?
Posso ter meu eu,
Na sombra que fui,
Confessado ser,
Privado de ter
Imagi...
CESURA PARA CENSURA
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Pode ser meu eu,
Na luz do que sou,
desvelando ser,
revelando ter
Imaginação?
Posso ter meu eu,
Na sombra que fui,
Confessado ser,
Privado de ter
Imagi...
CESURA PARA CENSURA - por - KBÇAPOETA
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Pode ser meu eu,
Na luz do que sou,
desvelando ser,
revelando ter
Imaginação?
Posso ter meu eu,
Na sombra que fui,
Confessado ser,
Privado de ter
Imagi...
O Poder Televisivo
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É de costume as pessoas mais intelectualizadas terem o hábito clichê de
repudiar a televisão. Entretanto, essa recusa baseia-se em um medo difuso,
não m...