sexta-feira, 18 de junho de 2010

Quanto desencontro, desencanto

desconforto em todo canto

Onde está o canto do mundo, o meu canto?

O canto dos sem-canto

Dos errados, dos inconformados,

dos não-engajados

Dos que querem ser apedrejados?

Já aparei as arestas mas sempre sinto

que resta

uma flecha

Só quero uma brecha

Um brejo que seja

Me basta que eu veja

que para além dos muros da tirania

exista uma pradaria

liberdade

realidade,

não essa verdade de mentira

esse fruto da restrição

Liberdade

Uma paz sem artilharia

Uma vida sem conceitos, sem defeitos

Entre o obsoleto e o correto

Só o que eu quero

É alforria!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Reflexoema a Posteriori

Faço as coisas que faço
sem saber por que faço,
porque sei que um dia saberei
por que as fiz

domingo, 9 de maio de 2010

O Amor É Subversivo



Após a morte de deus, o fim anunciado da família, o início da ciência e a legitimação do consumismo, todas as formas de imaginação e meios de sonhar foram suprimidos, deteriorados para que a nova ordem estabelecida pudesse vigorar. Viver tornou-se um ato pragmático, um praxe preestabelecido, um clichê nada emblemático. Nesse mundo seriado, em que o conhecimento, os produtos, os sentimentos e as almas são produzidos em série, contra o tempo e em busca de conseguir mais disponibilizando menos, o amor tornou-se também passível de ser consumido. Mas tudo que é consumido se consome durante o tempo, decai, perde o sentido de uso, o encanto, a utilidade, torna-se obsoleto. O que é industrializado só é interessante enquanto atualizado. A novidade quando deixa de ser nova, passa a ocupar, estorvar e é guardada até o momento em que se adquiri a certeza de que ela não será mais necessária, não se tornará indispensável em determinado momento indeterminado, não será procurada em um momento qualquer. Na capitalização dos afetos, nenhuma relação se mantém estável, nenhuma certeza é inabalável, nenhuma situação é imutável. Essa incerteza constante que torna cada instante uma apreensão angustiante implanta o medo e a insegurança. Uma ansiedade tão insuportável que a opção mais aprazível é viver uma vida à parte, longe das reviravoltas e revoltas das relações interpessoais. Decididamente racionais, podemos, enfim, engajarmo-nos no jogo, planejar um futuro, tornarmo-nos maduros, contribuir para a sociedade, movermos a economia, empurrarmos para longe a esperança de uma utopia, caminharmos desprovidos de ideologia.
Amar é subversão. Quem ama se abraça na maior contravenção social. Liberta-se das amarras desse mundo ciborguizado, desses estereótipos doutrinados, da grande massa de alienados. A existência ou não do amor comprovar-se-á ao fim da eternidade, mas até lá, amar significará não cair na generalização. Garantirá o direito a sonhar e a viver de uma arte subversiva, fundadora de uma nova linguagem, de um modo de viver menos egocêntrico, menos centrado no centro do ego covarde que não se expõem, que não se permite, que não compartilha, que não reverencia. Amar é imaginar a cada instante uma nova forma de futuro, um futuro sempre idealizado, utópico e transcendente. Amar é sonhar, quebrar as regras. Enquanto nesse mundo houver amantes, sempre poderemos acreditar em um novo mundo novo. Não importa o que digam, amar é uma arte, amar é liberdade. Amar é uma reestruturação contextual, uma destruição dos paradigmas arcaicos desse mundo racionalmente irracional.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

ALI


LI


ALIZA, ALIZA...


ALI, ALIZA COME


ALIZA COME


ALIZA COME


ALIZA COME


CI ALIZA,


COME


CI COMER ALIZA ALI


ALI ALIZA


CI


COMERCIALIZA

domingo, 2 de maio de 2010

Quantos Eus Sou Eu?

Sou a identidade do desconhecido.
A aberração do inacreditável. A difusão da essência. Sou malévolo, sou benevolente. Sou arrogante, sarcástico, irônico, vingativo. Sou um humano perfeitamente imperfeito, indiscritivelmente complexo, simplesmente incompreensível. Não tenho credo, etnia ou partido político. Sou absolutamente contra o absolutismo, afinal, nada é eterno, nem o nada ser eterno é eterno. Minha mente traça os caminhos mais sórdidos que a humanidade nunca ousou desbravar. Sou obsceno, não gosto de cenas pacatas, pessoas comuns, ambientes triviais, pensamentos óbivos, conceitos eloquentes, vidas civilizadas, pensamentos arcaicos, ordem pública, sexo seguro, cara limpa. Quero revolução; beber o sangue que jorra das entranhas dos meus inimigos, em um almoço, à beira do lixo que brota pútrido das residências mais abonadas dessa sociedade que condena o racismo, homossexualismo, corrupção, violência e todas as outras formas de instinto predatório selvagem XXI. Sou racista, homofóbico, xenófobo, ateu, anti-comunista, anti-nazista, anti-judeu, anti-anarquista, anti-punk, principalmente anti-hipócrita e provávelmente anti-você. Liberdade ao culto, liberdade às drogas, liberdade sexual e urgentemente liberdade intelectual. Estou cansado de discursos moralizantes, morais imorais, mães jurássicas. Quero prender-ma à liberdade, flutuar ao infinito. Viver, matar, ser o que não sou. Não tenho classe, gênero ou número. Sou, sempre fui, nunca serei ela ou ele. Sou único, sou infinito, exclusivo; não tenho definição, tribo, grupo, meio, vínculo. Sou eu e isso basta. Basta, mas não é o bastante. Sou sábio, sempre soube que o dom do saber é não saber. Respeito os animais, amo-os com o amor de uma mãe superprotetora. Acredito no amor e no fim desse mundo. Quero ver de camarote a dor nos olhos daqueles que hoje menosprezam a verdade e oprimem o intelecto. Inescrupolosos formadores de aliendados, componentes vitais a essa engrenagem que é a máquina desse mundo nem um pouco transcendental. Repudio os políticos e os desertores, ambos covardes munidos com discursos trabalhados em palanques da mentira. A covardia é a coragem, a morte uma solução, o suicídio uma opção. Mundo canibalista, terra de selvagens alfabetizados e burgueses doutrinados. Estereótipos ambulantes: adolescentes com maconha nos neurônios, álcool no fígado, volante nas mãos, celulares nos bolsos e ingnorância no cérebro. Um exército de diferentes, todos iguais. Um cliché americano ou um apelo comunista. Sigo meu caminho pela tangente desse círculo viciado, trilhas desmatadas, segredos revelados, surpresas conhecidas, emoções tediosas, drogas experimentadas, viagens com hora marcada, propagandas enganosas, libertinagens ingênuas, revolucionários sem ideologia, riscos seguros. Sou o paradoxo. Vivo paralelo ao simples. Sou imiscível ao comum. Nenhuma doutrina me corrompe, nenhum caminho me seduz. Nenhum temor me espanta, nenhum obstáculo me retarda. Nenhuma massa me vence, nenhum vencedor me derrota. Esse sou eu, esse é meu mundo. Com o céu límpido anil, em um fim de tarde de primavera, desfruto, da sacada do meu apartamento, a libido dessas cenas que ocorrem no circo da vida que é este mundo cão. Sou eu, sou assim. Livre para pensar. Carpe Diem!

terça-feira, 27 de abril de 2010

O que nos faz família?



A proximidade física liga os objetos


A lealdade liga os amigos

A fidelidade liga os amantes

O carinho liga os casais

Mas e a família, o que a mantém unida?

Já foi acusada desde instituição falida

a reduto de hipocrisia, mas ainda sim

inabalavelmente, família


Enquanto os físicos debruçam-se

na busca da partícula elementar,

qual o elemento fundamenta esta ligação secular?


Meu coração agoniza em busca de uma resposta:

como eu, sempre tão arredio,

posso estar fadado a sentir falta

a falta de alguém de quem não sentia saudade?


Será a brutalidade? Quanta animalidade...

Será o tempo prematuro ao antecipar teu futuro?

Entre o avô e o neto, um abismo insubstituível

Um vão insuprível

Uma ponte caída, uma glória perdida

Uma ligação jamais outra vez reconstruída

Perdoo teus pecados

Lamento ter mantido sentimentos afogados

E, ainda sim, não me sinto de todo culpado

em ser mais um a admitir sempre

sempre saber que palavras de amor só são válidas

...no viver

mas paguei pra ver


Se não fosse assim, não seria diferente,

mas só agora eu sei que algo a mais do

que o sobrenome unia a gente

sábado, 24 de abril de 2010

O Poder Subliminar

Rockfeller Center


A concentração da mídia é um fato cada vez mais representativo, arraigado e, até mesmo, legitimado, formal ou informalmente. Engana-se quem vislumbra a “midiocracia” como privilégio do dito terceiro mundo, países estes que sofreram uma grande dominação político, ideológica, e cultural, devido à guerra fria, em meados do século XX, através dos meios de comunicação subservientes; a prática de centralização também se avulta em países desenvolvidos como os Estados Unidos e demais nações controladas pelo capital da mão que se faz invisível para defender seus interesses obscuros.

A discussão que desponta é a antiga distinção – sempre nebulosa – do público e do privado. Senhores de todas as nacionalidades, dentre elas: russos, australianos, árabes e latino-americanos passam a ignorar a importância social dos meios de comunicação, em prol de seus interesses particulares. Um dos tantos exemplos que se poderia citar é o do onipresente empresário australiano, naturalizado norte-americano, Rupert Murdoch, dono de um dos maiores conglomerados de mídia do mundo, a News Corporation. A sede da News Corporation é em 1211 Avenue of the Americas (Sixth Avenue.), na cidade de Nova Iorque, no Rockfeller Center. A News Corporation é proprietária da Fox Company, do grupo Sky, do grupo DirectTv, do National Geographic Channel, do New York Post, da editora Harper Collins, da 20th Century Fox, da NBC, do Universal Channel, da Telemundo, do MySpace, de jornais americanos como New York Post e The Wall Street Journal, de jornais australianos como Herald Sun, The Australian, The Daily Telegraph, de jornais ingleses como News of the World , The Sun, The Times. E esse domínio não para de crescer. A exemplo de Murdoch, – com posses muito mais singelas, é claro – Silvio Berlusconi, primeiro ministro italiano, é dono do Mediasat, grupo com três canais privados de TV por transmissão terrestre, na Itália.

Os efeitos da concentração midiática podem ser facilmente observados quando faraós da comunicação encontram-se e importunam-se mutuamente, assim como ocorreu quando Murdoch resolveu invadir a “propriedade” de Berlusconi. Murdoch e sua televisão por satélite Sky “invadiram” a terra de Berlusconi em 2003. Desde então, a situação começou a ficar tensa entre os grupos; mas, de fato, o litígio foi deflagrado em 2008, quando a Sky superou a receita do Mediasat.

Enquanto, por um lado, Murdoch segue a formar sua coleção de jornais, os quais vão desde falidos com dívidas faraônicas a venerados periódicos tradicionais; por outro, o premier italiano utiliza de seus meios para conquistar seus fins: aprovou um imposto que taxa em 20% as tevês pagas. Levando-se em consideração que a Sky já detém 90% do mercado, contra apenas 5% da Mediasat, torna-se evidente a transformação de um problema econômico e comercial em uma disputa política. Em resposta, alguns meses após a aprovação do indigesto imposto, o Times de Londres (coincidentemente também de Murdoch) publicou um artigo sobre a estranha amizade do primeiro ministro com uma adolescente de 18 anos.

Entre as consequências negativas à população está a perda substancial do direito à informação. Mesmo a Itália estando em pé de guerra, a maioria dos italianos desconhece, total ou parcialmente, a disputa com Murdoch, e esse fato é devido a 70% dos italianos informarem-se por meio de três canais públicos e três da Mediasat. Ou seja, a pseudopluralidade não estabelece independência de informação, pois direta ou indiretamente os canais estão ligados a Berlusconi.

A praga que está devastando o Jornalismo pelo mundo a fora tem força extrema também nos EUA, onde foi consolidado um grande cartel de mídia, no qual dezenas de veículos de informação e de entretenimento estão vinculados a um poder central, o qual dita regras e seleciona meticulosamente o que se tornará público ou não. Nessa conjuntura, o cenário informacional tornou-se joguete de interesses estritamente privados, mas com proporções exacerbadamente públicas.

A primeira edição do livro Stupid white men, de Michael Moore, saiu da gráfica um dia antes do ataque às torres gêmeas, mas os caminhões que transportavam os livros não chegaram às livrarias, pois a antiga editora, Regan Books (uma divisão da Harper Collins, também de propriedade de Murdoch) manteve o livro sob censura por mais de cinco meses, porque considerava que mais de 50% da obra continha seções ofensivas ao então líder George Bush. O autor recusou-se a alterar seu livro, mesmo sob a ameaça de os exemplares impressos serem destruídos. O impasse terminou quando bibliotecários que souberam da censura uniram-se em protesto contra a editora.

Episódios como esse são comuns e tornar-se-ão mais corriqueiros se depender dos esforços dos políticos ianques. O congresso norte-americano aprovou o chamado Telecmmunications Act, o qual desregulou o setor de comunicação e foi responsável pelo fechamento de mais de 4 mil rádios locais. Juntamente com esta decisão “política”, outras, como a regulamentação aprovada em 2003 a qual permitiu aos donos de empresas de comunicação aumentar sua presença de 25 para 45% de domínio, em qualquer localidade.

Com o corporativismo tornando-se mais voraz e inescrupuloso, não resta dúvida de que se os cidadãos ainda almejam uma informação de qualidade e digna de crédito, a solução são os meios de comunicação públicos. Um exemplo é o Canadá, onde, ao comprar um aparelho de televisão ou de rádio, uma fração do valor é revertido diretamente a um órgão público de comunicação.

A imprensa está decadente e com ela os governos. A pluralidade existe, mas somente de fachada. É preciso termos viva a ideia da inestimável e insubstituível contribuição da imprensa livre para a efetividade da cidadania. Segundo Thomas Jefferson, “entre um país sem governo e sem imprensa, escolheria a primeira opção”.Um país sem imprensa crível é terra de ninguém., ou melhor, é terra de poucos “alguéns”.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

GLANDULA PINEAL





Na acesa fantasia estou medindo,
O doce amor que sentira um dia,
No tempo que sobre asas,
Leva-me incauto ao abismo.

De lá, observa-se um turbilhão de ideias.
Alumbramentos desfigurados em visões,
Onde não está anunciado o novo mundo,
E sim, o mais puro papel em branco.

Isso mesmo!
Um papel em branco onde gesto e reação
Funcionam qual a pena, que destila letras,
Nau singrando o mar das divagações.

Em dias de ressacas suas ondas
Expõem o rochedo de minha razão,
E ri, como um infante do meu ceticismo.

Procuro acreditar nas ciências,
Nas entrelinhas do jornal.
Que galhofa!

O mar não é recipiente
Não tem forma

E eu?
Fico rochedo no fundo do mar.




domingo, 11 de abril de 2010

Vês

Dali, S. Aparição da face de Afrodite de Cnide









Vês, que no meu íntimo

Teu ser me completa

Penso. E a cada pensamento,

Vem a tona um gesto teu.

O furor do sentimento

É a amálgama do coração,

Consolidam o espírito.

Celebração



quinta-feira, 1 de abril de 2010

LIBERTE-SE DA ALIENAÇÃO!



Pense!



Pense nisso.

terça-feira, 30 de março de 2010

Ocaso

a falta de bom senso

a insensatez

a súmula de um fac-símile factual

estética a seguir

dialeto que vem antes

hedonismo a flor da pele

cocaína no nariz

a vida pra se viver

pra esquecer os seus dilemas

tornar os seus desejos

a solução dos seus problemas

....

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ser grande?

Ao tentar ser grande, e por ter sido sempre tão ínfimo, o vivente decai em sua angústia.
Como ser grande? É a questão que lhe pertuba.
Porém, o que o vivente não se dá conta - e, claro, ele não é mais do que uma vítima de um círculo de seus semelhantes - é que a pergunta que deveria incomodá-lo é: Por que tento ser grande?
A resposta para essa questão ele tem na ponta de sua língua. Contudo, essa resposta é aquela que fizeram-no crer estar certa.
Não. Ele não precisa ser grande então?
Bem, quem sou eu para responder?
Sou aquele que vê, observa e nada faz.
Sou os olhos críticos da sociedade, ou simplesmente a consciência do nada.
Você não conseguirá ser grande, é a minha conclusão.
Tristeza?
Escrúpulo?
O mundo caga em você e você caga nele. Por que deveria ser diferente?
Pois é.

O Coração do Amigo

Então, meu amigo, sobre você também pairou a lenda do amor? Percebo em seu sorriso e na sua fala ondas de luz e de som que parecem ter a força necessária para mover o mundo sem o auxílio de uma alavanca. Em verdade, amar, em si, é a alavanca que soergue o peso das dores e assoreia o maior dos temores: deixar-se amar; envolver-se na delicadeza e fragilidade da ferida exposta; por à prova o ego; esvaziar o peito, inflar a alma e perder a calma. Fico contente de ver suceder-lhe o que há de melhor: a surpresa inacreditável. Quando acreditávamos que a porta do paraíso fechara-se abrupta e brutalmente para todo o sempre, eis que, de novo, estamos vivos!
Caríssimo, sei que sabe que lhe sinto como parte da minha parte, e que,portanto, não consigo sorrir sem lamentar a dor que percebo por não lhe ter compartilhando meu regozijo. Não raras vezes foram, nem o serão, que substituí sua companhia para estar na dela; assim procedo e procedi porque sei que sabe e entende, mesmo que por hora impossibilitado de compreender pragmaticamente, o feitiço envolvente e desbaratinador de amar; essa necessidade insaciável de estar unido que sobrepõe-se a tudo, inclusive às mais profundas amizades, que só quando realmente verdadeiras são capazes de compreender. Sim caro, por isso coloco que a amizade é de todo infinita, pois sabe sua infinitude e alimenta-se, mais do que tudo, da felicidade do sempre querido conviva. Todavia, mesmo quando longe, sinto perto seus sentimentos mais profundos, os quais estavam longe de serem os mais deleitosos. Entretanto, após o inverno tempestuoso que passamos perto, agora vejo brilhar ao longe os primeiros raios de sol de uma inestimável primavera mais do que propícia para você alçar voo, o voo da águia, o voo da renovação. Um voo maravilhoso e único, somente possível para essa esplêndida ave de rapina detentora da mais profunda sabedoria, idólatra da liberdade e eterna amante da mais bela e ousada coragem. Vejo com muito prazer sua silhueta esmaecer obstinadamente no belíssimo horizonte do amar. E lhe desejo de toda sorte minhas melhores aspirações.
Não, meu velho, talvez não sejamos os últimos românticos, existem outros; mas talvez sejamos os últimos a cultivar a coragem de acovardar-nos perante a onipotência da força tão frágil do amor. Claro que amar não é como consta nos manuais folhetinescos, não nascemos dispostos, talvez predispostos, mas jamais, de pronto, aptos a amar. Não se ama sozinho, amar sem ser amado é flerte, e flerte é sedução; sedução, por sua vez, nada mais é do que o escape discreto e dissimulado de uma perversão intrínseca, quase sem emoção. Seduzir uma mulher é uma diversão agradabilíssima, é verdade que muitas vezes faz-se uma pratica pouco altiva, mas, ainda assim, podemos entreter-nos noites a fio a praticá-la. Mas lhe pergunto, áureo irmão, de tudo, o que fica, senão rememorações frias, estáticas e levianos blefes varonis? Se me permite, digo que mais acertadamente complementaria sua ideia da seguinte forma: sim, algo fica, fica o vazio sedento por complemento. E, diferentemente de antes,esse vazio não é preenchido com a companhia da solidão, mas somente com o calor de uma alma complementar , de um coração, de sentimentos, de pensamentos, de carinhos e, até, de ingênuos aborrecimentos. Características essas tipicamente humanas, assim como, de fato,enfim, sentimo-nos: humanos! Mas, caro amigo, infelizmente dessa vez o mérito não se restringe somente aos nossos feitos ou ao poder de nosso falo, o fator desencadeador esteve por todo esse tempo fora dos nossos domínios físicos, mas agora,finalmente, está, também, perante ti. Consigo perceber e identificar-me com seus atos inseguros, pueris, quase beirando a inocência. Sim, amigo, retrocedemos a um tempo de pureza extrema no qual sentimentos e atos involuntários coordenam nosso comportamento, levam-nos àquilo que somos: heróis quixotescos em busca de objetivos idílicos fisicamente realizados nessa utopia praticável que é o amar. Sem dúvida, irmão, vá em frente, exacerbe seus mais íntimos sentimentos, aflore suas emoções, deixe-se chorar de alegria e de medo; amar é um sofrimento transcendental que nos coloca em contato com nosso alter-ego mais fidedigno: nós mesmos, sem máscaras, nem armaduras. Amar outrem é a maior demonstração de amor próprio. Ame amigo! Se seus pressentimentos apontam-lhe um norte, mesmo que sem uma bússola, acredite, você estará no caminho certo. E, sem dúvida, encontrará mais, muito mais do que um pote de ouro atrás do arco-íris. Encontrará exatamente o que em seus sonhos mais íntimos sempre procurou exasperadamente: uma íris a lhe focar, cobiçando beijar e lhe sussurrando, ao pé do ouvido, todos os segredos mais profundos do incondicional prazer de simplesmente amar.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O Concerto

Consciência involuntária
Desregrada ao que condiz
Remetida à outrora hilária
Condição nos condões do chafariz

Canções desvirtuadas soam
Repetidos ecos a murmurar
Na escura rua voam
Os primeiros pásssaros a cantar

Malogradas conversas desregradas
Regadas à bebidas alcoolizantes
Levando o ser a ler escritas sagradas
Com o alcalóide visualmente latejante

Olhos hipnotizantes
Olhar admirado
O traje agora engomado
Pronto pro concerto delirante

domingo, 21 de março de 2010

Redundâncias Cíclicas de Mais do Mesmo de Novo Mais Uma Vez

Tem horas que as horas que passam, passam sem sentido, sem sentimentos, sem serem sentidas, sem nada. O pranto abafado nas profundezas do peito sorri de alegria por saber não ser sabido, não ser querido, mas ainda sim, ser soberano. O corpo convulsiona no anseio de emoções baratas que possam trazer de volta o desconhecimento de quem se é, procurando não encontrar nada que diga tudo sobre nós. Dispersões e derivações quaisquer que mostrem o mundo profuso [dos outros] contrastante com a nulidade do nosso. Seguimos em frente, rumo ao externo, rumo [aos outros], ansiosamente desesperados, tudo em busca de um desejo natimorto de esperança, perseverança ou de voltar a ser criança, um óvulo fecundo no útero de uma vida a mais qualquer. Um aborto da natureza, uma leveza na tristeza, uma proeza sem destreza. Ser tudo, por ser nada.
A tristeza não é triste, triste é estar feliz na desgraça anunciada de uma isolação na multidão. A falta de um abraço preenche o espaço que cinde a razão da emoção, a verdade da mentira, a pureza da imundície. Roupas alheias pelo chão e uma fragrância prendendo em teia no horizonte texturizado e colorífero uma visão atemporal, beirando o irracional por insistir em querer ser tão ambivalente, tão normal e tão habitual.
Ciclos intermináveis, não querendo mais girar no mesmo lugar, sempre no mesmo e para o mesmo lugar, sem parar, sem parar, continuando a girar, a girar, a girar e voltar, de novo, àquele mesmo lugar, de novo, sem parar, sempre a girar no mesmo lugar – chega, por favor, quero descansar... Auscultar o silencio, silenciar o coração, encontrar a completude na mais simples atitude de ser não ser. Estar à parte das emoções, distante das tentações e cada vez mais perto de onde se esconde a imensidão de um oceano sem pretensões.

sexta-feira, 19 de março de 2010

A pós-criança

Vejo o rosto da criança

Que brinca de ser adulta

Dança na sua jovialidade

Gira, gira pela sala

Gira, gira pelo mundo

O mundo girou

Ela cresceu

Ainda percebo traços atuais

na sua figura adolescente

Ela cresceu agora já não gira pela sala

Agora ela vive a procurar as novas festas

Em todos os lugares

O mundo movimenta-se

Ela se movimenta

Ao som das ondas mecânicas

Ao despertar de novas freqüências

Despida dos pudores juvenis

Agora ela está sozinha

Perdida na conseqüência imagética

Da nuvem de incertezas que paira na sua

Temática alegoria de pensamentos pueris

o desconhecido


Ela procurou outro destino

Talvez perdeu o tino, fosse um desatino?

Ela está no velho mundo, com novas pessoas

A velha forma de viver agora é recente, lá se exporta modelitos sociais

A antígona que sobrevive aos prédios de solidão

Isolação que assola o semblante mergulhado na imensidão

De repente o quarto pequeno se fez imenso...a cama vazia, pratos e talheres a menos

Menos roupas...muitas roupas

Menos gente... mas há culpas?

O que pode ficar é o cheiro

Um perfume esquecido

150 ml do seu cheiro, uma essência de teu corpo

Agora ela habita outro país, outra cultura outra raiz

Agora ela fica do outro lado, com pessoas que se tornaram próximas

As mesmas pessoas que deixaram outras criaturas com cicatrizes

Imagens que vem

Pensamentos que vão

Ideais porém

De um destino vilão

Um desvario no clarão

Um desânimo na escuridão

Fora ou perto

Longe ou em casa

Cada fato é obsoleto

Cada sentido é um trejeito

De modo a chafurdar alguma coisa no meu peito...

De modo a chafurdar alguma coisa no meu peito...

O desconhecido

Ela foi atrás do desconhecido

Ela encontrou o desconhecido

Ela encontrou um desconhecido

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quem É Você?


Existem momentos na vida em que viver já não é mais o objetivo objetivado, mas sim esquecer-se de que se está vivo e do que se viveu e se morreu até aqui. Entretanto, enquanto o coração ainda continuar a pulsar e o sangue a correr nas veias, a covarde pulsão de morte não adentrará a consciência. Então, nos deparamos com um rosto estranho no espelho de um banheiro qualquer: um rosto embriagado, entorpecido e decaído. Já não é mais belo, jovial, inocente, apenas descrente do futuro e do presente. Escondendo-nos em lapsos da consciência, apesar de ainda continuarmos substancial e fisiologicamente vivos, não estamos conscientes para perceber. Aliás, vivendo guiados pela subconsciência, a percepção de tudo e de todos é amena e intensa como um devaneio desvairado, colorido e altamente odorífero. A contradição nasce quando nos percebemos mais vivos e presentes do que, de fato, buscávamos estar. Mas, infelizmente, estamos em um presente que não nos presenteia com a dádiva da completude e da harmonia contínua. Estamos inquietos por insistirmos em sermos o que não somos e o que tememos nunca conseguir ser. A busca da vida intensa é a morte transvestida com uma capa de um anseio de liberdade infantil. Nesse tortuoso e infrutífero caminho de busca de nós mesmos, afastamo-nos cada vez mais daquilo que procuramos sem nem ao menos saber o que é. Estar livre é uma prisão arbitrária, inescrupulosa e com muitos requintes de crueldade. A identidade que nos prende e aprisiona em um nome, em uma vida, em sonhos, medos, forças, fraquezas, defeitos e qualidades não é um muro a ser derrubado ou transposto; mas um porto seguro para sempre ancorar e usar como ponto de partida para novas empreitadas pelos revoltos oceanos pacíficos da vida. Quando se nega ou se manipula quem somos, chegamos ao cúmulo da solidão, ao ápice da tristeza, ao abismo que separa o peso e a leveza. Quando nos deparamos com a voz e com os desejos de um desconhecido dentro de nossas mentes, nos percebemos esquecidos dentro de nós mesmos, perdidos em um universo hostil, comprimidos entre a verdade e a mentira, sufocados por todos os mundos desbravados por todos os nós que passaram a habitar essa bolha de ilusões que se tornou o nosso peito amargo. Aquele amigo que nos virou as costas quando acreditávamos mais precisar, ou que com rudes palavras nos fez chorar, talvez não tenha sido um inimigo a combater, pois estender a mão não é apenas um ato de ajuda, mas de aceitação, cumplicidade e aprovação. Ter uma mão estendida àquela entidade que se apoderou de nossa alma e mente é um apoio para galgar degraus rumo ao âmago do inferno existencial e vazio absoluto que nos depararemos quando chegarmos ao mais profundo de uma alma sem paz, sem identidade e sem um abraço que esquente o coração com o amor fraterno da compreensão de quem - por dentro da casca - ainda somos. Se aquele no espelho já não consegue mais sorrir e sentir a alma alegrar-se, é porque entre os olhos vidrados no espelho e o espírito depredado existe uma barreira esquizofrênica e intransponível que segrega violentamente quem não somos de quem não queremos ser. Esse conflito entre os dois que não somos gera quem passamos a ser: um subconsciente inane, um corpo sem sentido que como única meta tem o flutuante e sempre distante objetivo de recuperar-se, definitivamente, do cada vez mais constante torpor. Viver entre a euforia e a depressão não é a liberdade da vida, mas a morte lenta e constante do ser pujante que um dia transbordou dos olhos de quem, um pouco mais a cada dia, menos conseguimos sentir dentro de nosso imo.

Não destrua o que já não resta mais do que você nunca foi; não cubra a vida com a morte. Entre ser quem não se é, e não ser nada, é preferível não ser nada. Todos os caminhos que nos guiam rumo ao infinito sempre são caminhos passíveis de serem trilhados de maneira amena, correta e harmoniosa. Podemos iniciar uma nova jornada a cada manhã, com pequenos passos rumo a uma pequena tranqüilidade e, assim, pouco a pouco, distanciarmo-nos de uma ficção delirante, que só se torna confortante quando se está no cume da despersonalização, e, dessa forma, dissolvendo no vazio toda possibilidade de lembranças verdadeiramente aprazíveis e reconfortantes, dignas de serem rememoradas e enunciadas pelos intermináveis ciclos da vida eterna e perecível.

A salvação não está no mundo, mas no mudo olhar de quem consegue ver tudo mudar sem perder a paz de sempre estar como um todo no mesmo lugar.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

VÍDEOPOEMA PERECÍVEL

Nem tudo é para se dizer nesse mundo,
Existem coisas que devem permanecer ocultas.
Caminho adentrando vertigens de nostalgias
Como se percorresse
O caminho de minha morte anunciada.
Como se fosse entrar em um estado
De absoluto esquecimento.
Não existe morte!
Existe esquecimento.
Que são os versos,
Se não passagens do esquecimento?
O vento passa e arrasta as lembranças
Como os rastros das estradas.
Procuro o não-lugar,
Longe do segredo que oculta
A graça da recordação.
Quando se morre,
Começa o esquecimento.
Esqueço de quem fui.
Esquecem o que fiz.
Esqueço de quem fez.
Comungo com os sais minerais
Em um nivarna microscópico,
Entornando o húmus
Que ira alimentar a vida
Dos que ficam.
Aqueles que não lembro mais.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Tic-Tac

Um desalento sedento de prazer

Um corpo cambaleante diante da defenestração

Quanta emoção

Viver a vida por um fio de autocomiseração

Observar os carros passar

Mas cansar de esperar aquele passar

Madrugada quase fria, calçada vazia

Relógios por toda parte insistem em desviar a arte do não ser

Quanto tempo para abastecer a vacuidade do anoitecer

Ler, ver, em alguns momentos até crer no não pensar

Mas sempre voltar àquele lugar onde não se pode estar

Desviar o rumo, mudar a rota colocar a vida à prova

Sentar na janela e ficar à espera do brilho de uma estrela que não brilha mais

Ser capaz de vasculhar mentes e cultivar sementes de sentimentos virtuais

Escrever uma dúvida, anotar uma esperança, provocar uma lembrança

Conversar sem falar, codificar para dificultar

A insanidade infantil daqueles que não conseguem envelhecer

esquecer

E só restar provocar um par de sorrisos para se entreter

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Volátil Cheiro do Amar

O amor é volátil, assim como o cheiro se dispersa pelo ar, pelas escadas, salas e dormitórios. Quando sentimos nossas roupas, pelos e pele embebidos no cheiro da pessoa amada é como se a presença ausente já não fosse mais solidão, mas uma perpétua união de saudade. A imaterialidade contundente do cheiro é o par análogo perfeito do amor. Não precisamos ter a pessoa para senti-la; não precisamos tocar suas curvas e boca para sorvermos o prazer indizível da completude lacerada. E o mais importante, não podemos de toda verdade afirmar não estarmos em sua presença, pois o cheiro é a extensão concreta e palpável do corpo. Cada fragrância é uma impressão digital marcada na tez, que lava consigo mais do que o espírito memorável do ser amado, mas traz o corpo denso, único e capaz de pegar-nos pela mão e levar-nos a um passeio, a um jantar ou a um delírio idílico de um amor dionisíaco. Só quem ama sabe.
Ter em seu corpo o cheiro da pessoa amada é ter sobre seu corpo o corpo despido do seu amor. Sem roupas e sem máscaras, apenas, e mais do que tudo, em sua essência pura e imaculada. Essa presença volátil que domina sem prender faz-se onipresente, adentra as narinas e instala-se na alma, no âmago de um coração apaixonado que com sublime paixão sublima o amor, eleva o espírito, transcende o corpo e encontra o infinito no segredo desvendado do amar.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A Voz do Lixo



Em um dos parques mais representativos da cidade gaúcha, Porto Alegre, firmou pousada o morador de rua com nome complicado: André Boardman Malet, homem branco, queimado pelo sol, com cabelos rasos e grisalhos esparsos. Apesar do tipo físico magro e aparência maltratada devido aos anos de trabalho árduo como papeleiro, a voz mansa e os movimentos contidos transpareciam uma simpatia e irreverência cativantes. Quando o abordei para perguntar se ele importar-se-ia em conceder uma entrevista, André gentilmente guardou a revista “Isto É” que estava lendo, encontrada em um dia de trabalho, e, então, prontamente começamos a prosa.

Guerra – Quantos anos você tem?

André – Eu nasci em 71 né, então...

Depois das contas – e algumas dificuldades matemáticas tanto do entrevistador quanto do entrevistado – chegamos à conclusão de trinta e oito anos, um ano menos que André pensava. Após esse rejuvenescimento, ele animou-se a tomar um dedinho de sua “cachacinha”, companheira inseparável na solitária vida desprovida da possibilidade de sonhar.

André – Aqui a cachaça tu tomas mais porque a questão não é só descansar um pouquinho, mas é porque o corpo tá precisando mesmo. Daí chega a hora de dormir e tu dormes mesmo, curte aquele sono. Às vezes meus olhos enchem de água pensando na minha família, nos meus parentes que não são legais comigo. Mas daí eu tomo a cachaça, e vai passando o tempo, tu vais ficando meio zonzo, daí tu comes a comida, deita um pouco e descansa. Porque de “carinha” é brabo, sem tomar um trago, é brabo. Tu não consegues encarar a vida, não por uma derrota, porque eu não tenho culpa de vir da onde eu vim, mas porque é brabo mesmo.

Guerra – Você mora na rua?

André – Eu moro na rua. Quando minha mãe e eu viemos para cá, ela foi fazer uma faxina e arrumou um outro namorado, daí nasceu meu irmão. Minha família é muito rígida. Então a escorraçaram de casa e ela juntou-se com o pai do meu irmão, mas ele era muito ruim, batia nela, batia em nós. Ela não aguentava ver isso, então se matou. Depois que minha mãe se matou eu fui morar com a minha vó. Mas daí, um tempo depois, ela morreu e eu fui morar com meus tios que têm uma marmoraria. Eu trabalhava lá, mas eles me tratavam muito mal. Eu tinha que levantar às sete e trinta da manhã e trabalhava até às oito horas da noite quebrando pedra. Eu não ganhava nada, era horrível. Todos os outros caras que trabalham lá ganhavam duzentos e cinquenta reais por semana, com todos os direitos. Comigo era diferente, eu só ganhava alguma coisa quando sobrava troco do supermercado. Bah, era horrível, quebrei todos os meus dedos derrubando pedra em cima, agora eu prefiro trabalhar como papeleiro. Se eu quiser trabalhar lá eu posso, mas tem que ser de graça; tem trabalho, mas só se for de graça. E isso me dói o coração. A minha vida foi braba, foi terrível; por isso, desde que eu comecei a morar na rua, não senti impacto nenhum. Às vezes eu tenho vontade de comer um doce, eu paro na frente da confeitaria, escolho o doce e como. Esses dias eu até me ralei, me cobraram cinco reais e pouco por um potinho de doce, mas era uma coisa que eu tava com vontade de comer, eu tinha dinheiro, então fui lá e comprei. Antes eu ficava vendo de longe meus primos comerem. Eu me lembro no Natal todo mundo ganhando presente e eu não ganhando nada, isso corta o coração. Bah, se eu chegar lá e pedir um lugar pra dormir, eles dizem para eu ir me acertar com os cachorros. Mas nem por isso eu me tornei um ladrão, um bandido, sou um cara trabalhador.

Guerra – Você já foi para algum albergue?

André – Não, porque não tem onde deixar o carrinho. Se tivesse, com certeza eu iria. Já tentei ficar em pensão, mas lá tem roubo. Eles prometem que ninguém mexe no teu carrinho, mas de noite roubam tudo.

Guerra – Você consegue manter-se com a sua profissão?

André – Claro, eu consigo. O carrinho dá pouco, tu te ralas e dá muito pouco, mas se tu não gastares o dinheiro em outras coisas, sempre sobra um troquinho para guardar: três, quatro, cinco reais por dia, até dez, dependendo da viagem. Até porque tu tens que ter um dinheiro para gastar com graxa, com um reparo ou outro no carrinho.

Guerra – Como é no inverno?

André – Ah, o inverno é terrível. Se tu ganhares dez “pila” hoje, tem que comprar farinha e álcool para fazer bolinho. Porque é dois, três dias chovendo, e tu socado dentro do carrinho, só comendo bolinho. E aqui já não dá para ficar, tem ficar mais lá para dentro, perto do estaleiro, porque lá é um lugar mais retirado, aqui não dá. Tu não vais ficar o dia inteiro dentro do carrinho, a SMAM vem na hora, te enfia dentro do caminhão e te leva. E se eles deixarem, amanhã tem quinhentos. Então no inverno é brabo, molha uma roupa tem que colocar fora. Tênis então, às vezes tem que trabalhar com os pés descalços, dando com a ponta dos dedos nas pedras. Bah, deus o livre, no inverno é terrível.

Guerra – O que você pensa a respeito da polícia?

André – Eu gosto da polícia. Os brigadianos, podes ver, tu estás conversando comigo, eles passam aqui na volta e não vêm. Vieram uma vez pedir documentos, eu mostrei meus papéis, ele “radiou”, viu que estava tudo certo, e foi embora. Há muitos anos me pegaram fumando um baseado,foi só esse meu problema com a polícia, nunca mais. Tem policial corrupto, mas é a exceção. É que nem na minha profissão, quantos papeleiros ladrões têm por aí. Pra mim é bom a polícia por aí, podia até ter um pouco mais.

Guerra – Algumas pessoas reclamam da violência desnecessária da polícia, isso nunca ocorreu com você?

André – Tem uns guris que são meio abusados, da Guarda Municipal também. Um outro dia, o brigadiano chegou, conversou comigo dizendo que eu poderia ficar dentro do parque, mas que o carrinho deveria ficar na rua. Eu concordei e saí. Depois me disseram que onde eu estava os caras vendem drogas. Mas o guarda municipal disse: “oh se eu te pegar ali dentro, vou te botar pra correr”. Olha cara, ninguém chegou e disse que iria me dar um salário, um emprego, um lugar direitinho pra dormir. Se oferecessem, eu largava meu carrinho agora. Eu não estou aqui por opção, nem por esporte. Sou obrigado a estar aqui, não tenho outra opção. O que eu mais queria era poder chegar de noite em uma pecinha minha, me deitar, ter meu lençolzinho limpinho. Poder lavar a minha roupa. Poder ter meu serviço direitinho, cumprir a minha hora e ir para casa, fazer minha comida. Se eu tivesse uma oportunidade, claro que eu iria largar isso e não iria atrapalhar mais ninguém na rua.

Guerra – O que você pensa quando olha um carro importado na rua?

André – Ah, um carrão bonito é de um empresário, alguém que estudou desde pequeno, que teve condições de estudar. Ou é de um cara que teve um pouco mais de sorte, lutou bastante e conseguiu. Ou é de alguém que tem uma firmazinha e tirou crediário, porque se tu tens uma firma, tem um endereço, tem uma casa, eles te ajudam. Ou às vezes já vem de berço mesmo.

Guerra – E você acha justo isso? Alguém ter um carro que valha mais do que todo o dinheiro que você irá arrecadar durante a vida toda?

André – É, daí só se assumisse aquele governo em que seria todo mundo igual. Eu não sei qual é o governo, não sei se é aquele da foice, que tinha o martelinho, mas disseram “oh vota neles que se eles assumirem vai ser todo mundo igual, não vai ter aquele negócio de desigualdade”. Acho que se eles assumissem ajudariam um pouco a gente. Porque se esses caras que têm carrão de não sei quantos milhões dessem um pouquinho para ajudar, já resolvia. Mas daí teria que fiscalizar bem fiscalizado, porque esses negócios de cooperativa é o maior "assanho" de tráfico. Tem que fiscalizar para que o cara dê tanto pra ajudar fulano, ajudar beltrano e ajudar mesmo quem precisa. Fazer a casinha direitinha para os caras, mas pecinha pequena, não casarão, já que estão dando uma força. É uma casinha para o cara poder trabalhar, sete e meia da manhã, oito horas tem que sair, ir trabalhar, e poder voltar de novo. Em seis meses, um ano tem que aparecer o progresso, o cara tem que estudar, porque daí se verem que ele está estudando, está se interessando vão dizer: “continua ajudando ele”.

Guerra – O que você acha da política?

André – Vou ser bem sincero contigo, eu não entendo muito disso. Eu acho uma corrupção, uma pouca vergonha. Eu não me animei mais a votar. Tenho vergonha de dizer que sou brasileiro. Tu os coloca lá, e eles só pensam neles mesmos. Se eles ganhassem um pouquinho menos, já ajudavam mais o pessoal de rua, e diminuía os moradores de rua. Tu queres ver, esses dias eu me apavorei, com o salário de um mês de um deputado eu vivo um ano, acho que mais de um ano, porque eu vivo três, quatro dias com dez reais. Eu vivo, com certeza, mais de um ano; compro minha erva de chimarrão, e vivo mais de um ano, e vivo bem; pelo amor de deus, vivo bem mesmo. Acho que vou trabalhar a vida inteira e não vou conseguir ganhar o que eles ganham em um mês.

Guerra – Que sugestão você daria para mudar essa situação?

André – Se eles pegassem esses drogados que andam com sacos nas costas, com “alicatões” dentro para roubar carro, atrás de pedra para fumar e de coisa assim, se eles pegassem todos e fizessem uma triagem, porque eles têm mais cabeça que eu, então eles têm como saber quem quer mudança e quem não quer. Se o cara não quiser mudança, então pega o nome dele e registra, se a Brigada pegar ele roubando, leva para outro lugar, tira ele de circulação para não ficar atrapalhando quem está trabalhando. Aquele que quer mudança, se estiver interessando, se estiver ajudando lá dentro também, então ganha uma força. Eu sou um que aceitava a mudança na hora.

Guerra – Você sente-se como se a cidade não fosse sua? Como se você não pertencesse à cidade?

André – Têm muitos lugares que as pessoas te olham com cara de nojo. A sociedade tinha que mudar. A pessoa que lutou, que estudou, que está no patamar que está, que tem condições psicológicas de entender o que é um carrinho na rua tem que saber discernir um ladrão de um trabalhador. As pessoas tinham que saber “aquele ali tá trabalhando, então não vou chingar ele”. Tem um senhor que passa aqui com os cachorros dele, e os cachorros vêm pertinho de mim, abanam o rabinho e tudo, mas o senhor grita com eles, para eles saírem de perto de mim. Uma vez eu até tentei cumprimentar o senhor, mas ele nem bolas deu, olhou pro outro lado. Os cachorros são mais humanos, por isso que eles vêm aqui. E outra, querem fechar a redenção. Ninguém mais vai poder entrar, só os “burga”, só quem tem condições. Quando vês, estaciona um bom carro, o cara coloca uma rede e fica bem à vontade. Mas nós pobres, eles vão expurgando.

Guerra – Além daquele baseado, você já usou outras drogas mais pesadas?

André – Maconha eu já fumei umas quantas vezes, e já experimentei Crack uma vez, logo que saiu, mas não gostei, porque o cara fica meio estranho, ele olha diferente, parece que alguma coisa acusa na consciência, é uma droga desgraçada mesmo, não vale à pena, deus o livre. O que eu gosto é de tomar cerveja. Bah cara, uma “Skol” de latinha, geladinha. Olha, eu compro doze geladinhas. Os caras se apavoram, mas eu digo que se eu for comprar duas garrafas esquenta rápido, então eu vou lá um dia antes, pago metade adiantado, e peço paro o cara reservar para mim. Mas isso só no final de semana, porque nos dias de semana eu tomo cachaça, mas não é sempre, eu tomo de manhã um pouco e de tarde o resto. Eu não tomo direto, porque depois, conforme a idade, gasta as veias por dentro, daí não vale à pena.

Guerra – O que você pensa do papel dos universitários? Você acha que eles querem fazer algo para mudar, ou já estão acomodados à forma do sistema?

André – São o futuro do nosso país, cara. A gente não pode julgar eles pelos corruptos que estão lá em cima, vamos apostar. Claro que não vou dizer que de quatro, cinco não vai sair um que vai se juntar aos corruptos. Mas tem muita gurizada aí que está com vontade de mudar, de ver os problemas.

Guerra – Você acha que se o governo lhe desse apoio você poderia mostrar seu valor e contribuir para sociedade?

André – Acho que eu poderia me integrar para a sociedade, porque eu me considero um excluído, abaixo da sociedade. Se o governo me apoiasse em estudar e em ter um serviço, eu iria me integrar à sociedade. Porque assim eu estou dependendo do lixo da sociedade para sobreviver, da sobra deles. Se eu tivesse o apoio do governo, com certeza eu mudaria de vida. Bah, olha, o primeiro que chegasse com uma proposta de um lugar para eu dormir, para poder ter as minhas coisas, um serviço, estudo, aceito na mesma hora, não penso duas vezes.

Guerra – Você acha que a solução é educação ou polícia?

André – Não adianta só colocar polícia na rua a dar pau nos cara. O que adianta vir um brigadiano agora aqui e pegar meu carrinho e me botar pra correr? O governo não está dando chance de eu progredir. Se o cara está na rua e não tem um pensamento abençoado por deus, cai na vida do crime, das drogas. Fuma maconha e crack toda hora. Então, colocar polícia na rua até pode tirar eles, mas tem que dar uma chance para mim. Para apertar tem que dar uma chance para nós. Eu quero mudança, eu quero mudar, eu quero sair dessa vida, mas se eu não tiver um apoio, não tem como. Antes de apertar, tem que estudar um esquema de pegar os drogados e levar para uma clínica ou para uma chácara e botar a trabalhar. Dar serviço para quem quer mudança. Separar o trigo, se me oferecessem eu iria agora, e comigo iria mais um monte. Em qualquer emprego, desde servente de obra até limpar pinico de hospital. Qualquer coisa é melhor que isso aqui. Olha cara, tem horas que eu fico sem couro na bunda de tanto caminhar, tenho que ficar tocando “Maizena”, pomada não adianta, e daí já são quatro reais e pouco. Se o governo me desse um apoio, eu com certeza iria aproveitar. Eles estão ajudando um pouco, mas esse pouco não está ajudando muito. Tanto é que tu podes ver a bagunça que está isso. Quantos roubos têm nessa Redenção. Olha cara, se me oferecessem apoio, eu não sei, mas acho que se eu não parasse, eu diminuía a cachaça.

Guerra – Quando eu cheguei você estava lendo uma revista, até que série você estudou?

André – Até a quarta. O meu maior sonho era estudar, desde pequeno. Mas quando a minha mãe se matou eu fiquei com problemas psicológicos. Então eu fiz tratamento de três anos e pouco no hospital psiquiátrico São Pedro. Fiquei muito tempo lá, um ano e pouco. Quando voltei a estudar, no mesmo colégio, a professora leu o bilhete que mandaram do hospital para a diretora na frente de todo mundo. Daí todo mundo começou a me chamar de louco, e eu criancinha, né cara, os alunos todos me chamando de louco e me dando tapa na cabeça. Eu coloquei as mãos na cabeça e tive que sair chorando. Bah, aquilo ali me deixou irado. Nunca mais voltei para a escola.

Guerra – Qual o nome da professora?

André – Professora Rilda, eu nunca mais me esqueci do nome dela.

Guerra – Sabe o sobrenome dela?

André – Não lembro.

Guerra – E o nome da escola?

Baependi, no bairro Glória.

Guerra – Um sonho de infância.

André – Bah, meu maior sonho era estudar e ser um policial, policial rodoviário, por causa das motos. Bah, hoje se eu tivesse condições de arrumar um lugar para dormir, trabalhar e poder estudar duas, três horas de noite, eu estudava. Eu fico triste de não ser ninguém, tenho vergonha de mim. De ir visitar um parente e ser humilhado por eles, por ser um fracassado.

Guerra – O que você pensa estar fazendo daqui a cinco anos?

André – Bah cara, vou ser bem sincero contigo, eu estou desiludido, eu não vejo futuro para mim. Só se eu tiver o apoio de alguém que me dê um emprego. Porque no carrinho tu ganhas hoje e amanhã tu estás morto de cansado, daí tu não consegues fazer o mesmo serviço, então o que tu ganhas hoje, gastas amanhã. Hoje eu achei comida, tenho vinte e três “pila” guardados, mas se amanhã eu não achar comida, vou ser obrigado a comprar.

Depois de mais de uma hora e meia de conversa, despedimo-nos. Ele mais leve de ter podido desabafar as lástimas de uma vida vivida sem vida; eu com todo o peso de uma responsabilidade social irresponsável. Que país é este em que uns vivem de luxo, e outros de lixo? A desigualdade é um fato, mas e a indiferença? Dar voz ao lixo não basta, enquanto a reificação dos marginalizados for a atitude confortável predominante, todos os gritos dos oprimidos serão abafados pela surdez estúpida do sistema.