segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
O GRITO DO GRILADOR
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
QUEM SOFRE O PECADO?
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
MEU AMIGO PEDRO - RAUL SEIXAS
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
ICANN ESPIONA VOCÊ
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
FRAGMENTOS DE VIAGEM À CIDADE DE "Z"
Ao transitar pelas ruas de Barra do Garças, deparo-me com indígenas conversando em guarâni. Aquela língua tão antiga, distante, ali na minha frente. Não podia compartilhar daquela língua tão bela e tão antiga. Uma pena!
Enquanto refletia sobre o muro semântico-linguístico que nos separava, desconfiava dos índios, eram dois. Poderiam e aparentavam serem malandros e poliglotas, mais malandros que políglotas.
(continua)
domingo, 17 de março de 2013
Só Para Loucos
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Niilismo
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Um Livre Suspiro
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Liberdade? Hein?
A sociedade é tão repressora e reprimida, tão opressora e oprimida, tão alienadora e alienada que esse conceito está se tornando impronunciável. Lembro-me do livro 1984, de Eric Arthur Blair. No livro, é desenvolvida a “novilíngua”, o idioma criado pelo Partido do Grande Irmão. Uma passagem interessante é quando um funcionário expõe que “todo o objetivo da novilíngua é estreitar a gama do pensamento”. Ele continua, “no fim tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la”. As “crimideias” são os pensamentos relacionados ao conceito de rebelião, portanto considerados subversivos. No mundo de George Orwell, pseudônimo de Arthur Blair, o controle da realidade dava-se pelo controle das mentes. Destruir palavras era o primeiro passo para essa conquista. “Cada ano, menos e menos palavras, e a gama de consciência sempre um pouco menor.” De fato, a capacidade de conceituar a realidade é uma ferramenta indispensável às utopias que visam à transformação. “Como será possível dizer ‘liberdade é escravidão’ se for abolido o conceito de liberdade?"
Orwell escreveu isso em 1949. No livro, era previsto que a novilingua fosse um idioma perfeito até 2050. Entendia-se por perfeito o momento em que todo o conhecimento da anticlingua – idioma materno – fosse abolido. “Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar... não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência."
Incrivelmente, já em 2011, discutir sobre o conceito de Liberdade é uma tarefa significativamente árdua. Muitas pessoas não conseguem entender, visualizar ou, sequer, imaginar. Observo que é como se um entusiasta da informática tentasse explicar a cavaleiros medievais as maravilhas da internet wireless. Esse triste cenário não reflete apenas os efeitos de uma crescente imbecilização do pensamento contemporâneo, mas também das consequências de uma sociedade cada vez mais policialesca, institucionalizada e burocratizada.
Se crianças são criadas sem liberdade por pais que foram reprimidos, dentro de um Estado opressor, como se poderia vislumbrar o conceito de Liberdade? No senso-comum torna-se óbvio e auto-evidente que não seriam necessários tantos dispositivos de controle, de repressão e de normatização se os homens pudessem ser livres. Definitivamente, planta-se a crença de que a Liberdade não é possível para os homens.
A perpetuação dessa visão de mundo me espanta. Diferentemente dos cavaleiros medievais – que nunca tiveram contato com a internet wireless – a sociedade vive sob a égide da visão que nega a possibilidade de liberdade desde 1651, quando Thomas Hobbes publicou o Leviatã. A concepção de que as pessoas deveriam renunciar à sua Liberdade em troca de tranquilidade, não me pareceu eficiente. Desde Hobbes, duas guerras mundiais, fascismo, nazismo e outros ismos selvagens assolaram a humanidade. Não precisamos remeter somente a dados históricos para confirmar isso, podemos coletar as estatísticas atuais das grandes cidades. Concluirmos que o Direito Positivo não contribuiu para garantia do Bem Comum.
Quando falamos em Liberdade, imediatamente somos retrucados por visões apocalípticas, inerentes a um sistema doente. “Então todos poderão matar-se uns aos outros.” “A violência imperará!” “Será um retorno à barbárie!” “O que faremos com os que não quiserem trabalhar?” “E os ladrões?” É engraçado notar como todos têm certeza absoluta do que falam. Quase não há pessoas que critiquem a possibilidade de que, em liberdade, muitas formas de transgressões poderiam perder, imediatamente, seu sentido. Raras são as vezes que uns e outros refletem sobre a possibilidade de muitas “disfuncionalidades” do sistema existirem justamente em função, apenas, do próprio sistema.
Se não bastasse isso tudo, cada vez mais leis e normas são redigidas, cada vez mais as formas de punição se recrudescem, porém, cada vez menos, a paz é conquistada. Condomínios parecem prisões; carros, tanques de guerra; homens, soldados treinados para matar; e assim por diante. Tudo inútil. Não sei se sou o único, mas é exatamente isso que entendo por barbárie.
As pessoas estão cegas, alheias de suas próprias consciências. A noção de que o “Homem é o Lobo do Homem” não encontrou solução no apelo à lei e à ordem. Alguns homens já despertaram desse transe. Pena que ainda são poucos. Bertolt Brecht é um deles. Em seu poema, “Os Dias da Comuna”, num trecho ele diz: “Considerando nossas fraquezas, os senhores forjaram suas leis para nos escravizarem. As suas leis não serão mais respeitadas”.
Estão todos uns contra os outros, enfraquecendo-se mutuamente. Enquanto os homens deixarem-se iludir no sentido de que seus inimigos são os próprios homens, continuarão a legitimar esse sistema opressor e mediador das relações, sem nunca perceberem que é este mesmo o verdadeiro Lobo de todos os homens.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Vegetarianismo: ação política ou filosofia individual?
Outro aspecto que desponta, é a escolha por estilos alternativos de vida. Muitas pessoas optam por aderir a determinados padrões de comportamento, em busca de diferenciação social. Obviamente, tal tendência não deveria causar espanto em uma sociedade movida por um sistema tão homogeneizante.
Claro, existem casos de pessoas que passam a não comer carne por respeito, amor ou piedade aos animais. Contudo, mesmo nesse caso, ainda assim, apenas são pessoas que decidiram, pura e simplesmente, não comer carne. Isso não deve ser considerado completamente negativo, no entanto não se pode confundir tal conduta como sendo a de um Vegetariano. Ser Vegetariano [com letra maiúscula] é, inextricavelmente, uma ação política, e portanto, um ativismo.
O ativista Vegetariano – verdadeiro Vegetariano – é aquele que coloca em perspectiva a sua prática individual de não comer carne, objetivando transformar o seu contexto. Sentir piedade ou amor pelos animais nada mais é do que um aspecto propulsor. O que determina a efetividade, eficácia e importância de uma prática é a sua dimensão utópica. O sujeito ativo em sua existência – ativista em prol da vida – é aquele que tem consciência de que sua ação de não comer carne subverte a lógica vigente, subverte as relações estabelecidas com os seres vivos transformados em objetos de cobiça e de desejo.
De forma sucinta, reduzir a quantidade de carne consumida pouco altera a realidade instaurada. Os estilos alternativos de vida podem ser denominados como modismos porque, em sua maioria, estão esvaziados de sentido. Pessoas que decidem não comer carne por qualquer motivação divergente da de desvelar a alienação funcional do sistema, não são nada mais do que reprodutores do próprio sistema.
Do mesmo modo que algumas centenas de milhares de chesters são poupados no Natal, outros milhares de cães toys, microtoys e outras derivações aberrantes geneticamente modificadas são produzidas em laboratório, o ano todo. Novamente, o sistema empenha-se em contentar os prazeres de donos e donas que optaram por não comer carne. O sistema reiventa-se. Ele sempre está pronto para atender o gosto do freguês, tenha ele o paladar que tiver: sangue escorrendo do cupim malpassado ou alface “só com vinagre”.
Alheios, alienados e isolados da realidade real, tentam amenizar esse absurdo desprovido de sentido. Consomem drogas [sintéticas ou nem tanto], consomem bens [não-duráveis ou induráveis], consomem vidas [virtuais ou ilusórias], consomem relações [pagas ou compradas], consomem felicidade [infeliz ou triste], enfim, consomem vida [morta ou assassinada]. De tudo que fica, é a certeza da longeva obsolescência existencial e das infinitas possibilidades impossíveis. Tudo são apenas ideias sem ideais, lutas sem causas, utopias sem esperanças. E no meio disso tudo, as ações políticas são esvaziadas de todo seu potencial revolucionário subversivo, tornando-se, apenas, novos aparatos distintivos nos cenários cults e, agora, culinários de uma modernidade pateticamente absurda.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Ao CU de Cada Dia
Todos estão acuados [a-CU-ados]. E indo na direção do CU, todos estão se transformando em merdas. Não uso merda com uma conotação pejorativa, muito pelo contrário. Apenas assinalo que o bolo fecal, vulgarmente conhecido como merda, é o resultado de um processo de deterioração e putrefação continuada. Todos aqueles com seus respectivos CUs na parede devem dar-se conta de que viver é mais do que defecar a existência.
Viver é uma revolução diária, cotidiana e habitual. Viver é subverter as imposições viscerais que querem prender a liberdade.
Mate seus pais. Queime sua escola. Fuja da sociedade. Suicide-se.
Depois disso, convide-me para tomar um suco.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Por Que Derivar?

A deriva é um exercício prático que tem como finalidade construir situações a partir da ação de deixar-se guiar pela psicogeografia. Esta, por sua vez, é a capacidade que os ambientes têm de produzir efeitos - conscientes ou não - nos afetos, nas emoções e nos comportamentos dos sujeitos. A deriva retoma o conceito de flâneur, descrito por Baudelaire como a pessoa que passeia pelas ruas e cantos desconhecidos da cidade sem compromisso, sem pressa, observando a tudo e a todos meticulosa e despretensiosamente, simplesmente flanando ao sabor do acaso. A ideia da deriva foi retomada com força pelos teóricos do urbanismo e arquitetura, principalmente por Guy Debord, importante filósofo, escritor, cineasta francês e fundador da Internacional Situacionista: movimento de vanguarda que propunha a apropriação dos espaços urbanos através da prática da deriva.
Entretanto, mais do que o aspecto cultural transcendente propiciado pela apropriação de territórios através da deriva, o ato de derivar colabora com a construção da subjetividade daqueles que derivam. A subjetividade humana pode ser pensada como uma fábrica de sentidos em constante transformação. Ou seja, a cada instante que estamos sendo o que somos, também estamos deixando de ser o que éramos e nos tornando uma nova forma de ser. Esse processo de constante mudança dá-se conforme nossas contingências, ou seja, conforme as relações que estabelecemos com os outros e com o meio no qual estamos inseridos. Dessa forma, nós seremos, invariavelmente, o resultado impreciso e instável da miscigenação dessas circunstâncias.
Muitas pessoas buscam restringir sua existência a espaços delimitados, situações estanques e pessoas específicas, na intenção voluntária ou involuntária de obter um poder de domínio sobre seu futuro. Nessa forma ascética de existir, há embutido um anseio por segurança, não uma segurança exclusivamente relacionada à integridade física, mas uma segurança em âmbito subjetivo, um anseio de preservarmo-nos inabalavelmente como somos, como conhecemos a nós mesmos. Tudo aquilo que é diferente ou pode produzir diferença em nós é assustador, quanto mais fechados em nós mesmos somos, mais pavor o Outro irá causar-nos. Sendo assim, a deriva surge como uma prática libertária, uma forma de revolução individual. O termo revolução vem bem a calhar, pois a principal característica da deriva é tornar as pessoas qualquer coisa que não seja o que eram. Esse poder revolucionário atribuído à deriva advém principalmente de um importante elemento indissociável a ela: o acaso. Enquanto em tempos antigos as tradições, os ritos e os rituais eram as formas pelas quais as gerações mantinham uma certa comunhão comunicativa e, por conseqüência, perpetuavam a cultura de forma rígida; nos dias de hoje, a rigidez histórica e cultural foi abalada a tal ponto que os sujeitos não encontram sua identidade em nenhum círculo de convívio específico, mas em todos, ao mesmo tempo. A cultura pós-moderna é transcultural, intersubjetiva e cada vez mais complexa. Então, se em outrora, devido a pouca flexibilidade cultural, os papéis eram clara e objetivamente definidos, dificultando significativamente o estabelecimento de uma subjetividade singular, contemporaneamente há o total avesso: uma permeabilidade total que, de forma semelhante também compromete a apropriação de uma subjetividade singular. Entretanto, atualmente, o próprio sistema que, devido à profusão de significados dificulta a incorporação de uma identidade, também cria brechas que permitem, através da deriva, por exemplo, os sujeitos serem transeuntes da própria existência, possibilitando que o acaso colabore na construção de um complexo existencial, deixando que a subjetividade transcenda os próprios limites da subjetividade.
O mais incrível presenciado por aqueles que têm o hábito de derivar é o aspecto de pertencimento e apropriação que brota quase que naturalmente. Aqueles que derivam podem perceber o espaço como uma extensão corpórea, um apêndice tão indissociável quanto qualquer outro membro físico. Essa apropriação dá-se no momento em que se deixa de ser espectador passivo e passa-se a ser autor, ou melhor, autor-ator de sua própria realidade. Como teorizaram muitos críticos contemporâneos, cada vez mais estamos inseridos em uma sociedade do espetáculo, a qual inverte as noções de público e privado, tornando cada vez mais os sujeitos prisioneiros de seus medos e desconhecimentos. A realidade cada vez mais mediada [midiada] faz com que a população das grandes cidades - principalmente - tenha cada vez menos informações acerca do que lhes diz respeito a partir da vivência, do empirismo e da contemplação, obtendo o conhecimento de suas “verdades” majoritariamente através de instrumentos que as distanciam daquilo que deveria ser o objeto primordial: o mundo. Essa alienação colabora para que aquilo que é desconhecido seja conhecido sobre a forma estática de “desconhecido”, portanto perigoso e passível de distanciamento. Esse distanciamento não somente nos afasta do mundo e da realidade imediata, como também afasta-nos de nós mesmos, afinal sem as relações com o mundo e com o Outro não concretizamos o desvelamento e a compreensão de nós mesmos. Na contramão desse aprisionamento constante, quando colocamo-nos a derivar, impelidos pelo desejo instigador, realizamos conexões de causa e efeito, início e fim que nos permitem conhecer o desconhecido e colocá-lo como um ente próximo. Há uma subversão dos sentidos: aquilo que causava medo, angústia e tensão, passa a ser um espaço de libertação e regozijo, afinal, quando absorvemos o Outro antropofagicamente, somos impregnados por uma interpretação singular daquele fenômeno o qual, por ser irrepetível, não pode ser descrito de outra forma que não como a expansão de nossa subjetividade. Absorver a realidade é alimentar nossa subjetividade, pois, por ela deixar de ser constantemente o que está sendo, constantemente permanece a ser o que é: uma entidade indissociável do que somos, em constante construção, em eterno vir-a-tornar-se, o que se pode chamar de devir existencial.
Apesar de a deriva dar-se no espaço das ruas, as transformações perceptivas vão para muito além da compreensão arquitetônica das cidades, elas também produzem diferenças significativas em nossa maneira de compreender aquele outro humano. Como os que derivam têm o espírito e a mente expostas à realidade, deixam-se absorver tudo aquilo que se possa agregar à subjetividade. A noção do Outro homem também é absorvida e podemos passar a perceber que aqueles que transitam ou transitaram, que estão ou estiveram em contato conosco são, apesar de serem o não-eu, tão importantes a nós quanto nós mesmos, pois são eles que também constroem nossa subjetividade. A maior contribuição da deriva à humanização das pessoas é seu potencial de expandir a subjetividade, torná-la cada vez mais maleável, elástica, flexível e capaz de abarcar fragmentos de outras realidades, mesmo que realidades incompreensíveis. Aqueles que derivam não estão em busca constante de conclusões, mas estão com conclusões constantes enquanto buscam derivas. Ou seja, a deriva não é um ato de construção ou solidificação, muito pelo contrário, derivar é desconstruir, implodir velhos conceitos, reformular, reorganizar e tornar-se algo fruto também do acaso, do esporádico, do imprevisível e, até mesmo, tornar-se fruto daquilo que não se sabe. Não raro, aqueles que derivam se põem a experimentar experiências registradas anteriormente como desagradáveis, simplesmente pelo fato de garantirem que estão transformando a realidade de uma forma não metódica ou previsível, desse modo transformam a realidade de uma forma não compreensível nem por eles próprios. Derivar é organizar a harmonia em meio ao caos. É pregar peças em si mesmo. É ser sujeito ativo da sua própria realidade.
sábado, 18 de dezembro de 2010
"Diamantes de Pedaços de Vidro"
E se eu pudesse dizer diretamente a ti que o segredo da vida é viver?
Será que bastariam as palavras ditas para te fazer entender?
Tem coisas que a fala dos sentimentos sentidos não pode falar
Quando dizer é mentir, e ficar quieto, omitir
o que nos resta é gritar calado
E calado eu sigo sem ser seguido
Afinal é melhor estar só quando se está perdido
Será?
Se quando me perco e estou perdido mas estou contigo, o destino não importa
E se a cada esquina a vida nos bate a porta
Procuro a chave do portão que abrirá teu coração
Mas não quero expor o nervo nem extirpar a flor
Não sei rezar nem tenho metáforas a propor
Tenho lembranças e um perfume
Uma ferida que não sangra, uma cicatriz sem dor [?]
Se por sofrer calado me consideras premiado
Trocaria este prêmio mudo pelo brado de ter-te mesmo derrotado
Se sabes por ti, rendo-me por nós
À deriva estou, à deriva estarei
Se o mundo a seis meios não comporta dois pares
A liberdade estaria em outros mares?
Entrego-me à sabedoria do eterno presente
e que leve o que serei para longe do que sou e do que seria
Liberdade é o acaso de autodestruir-se e aguardar a harmonia
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Negros Obscurantismos Obscuros Ocultos do Escuro
adulterando a placidez polida do observador então observado
a clausura libertária das orbes lascivas me envolve sorrateiramente
traio-me por estar atraído pelo perfume das melenas jogadas ao sabor de uma brisa venenosa
Serpente ardilosa
que sabe atingir o flanco da minha alma
Os calcanhares de aquiles que trago em uma cripta
domingo, 31 de outubro de 2010
José Serra e os Partidáriios do Antismo
O pior que pode ocorrer para um curioso é tornar-se preconceituoso. Preconceito e conhecimento são antagonistas declarados. Aqueles que querem ser mais do que apenas um em meio à massa, precisam infiltrar-se repetidamente no desconhecido, desbravar o inusitado e jamais contentar-se com o evidente. Na realidade, a curiosidade não deveria ser tida como uma vaidade ou como um adorno a ser ostentado, mas como uma característica inextricável do ser humano.
Nesses tempos de políticas e politicagens afins, muitas vezes deparei-me proposital ou acidentalmente com eleitores que apoiavam declarada e orgulhosamente o postulante à presidência José Serra. Como recomenda a cartilha dos bons costumes das sociedades democráticas, sempre procurei estabelecer um diálogo aberto e reflexivo que contribuísse, mutuamente, para a consolidação de saberes corretos ou desmistificação de mitos que, porventura, passaram despercebidos. Incrivelmente, nenhuma dessas discussões vingou. De todas, saí com a impressão de que minhas convicções tornaram-se mais convictas, bem como a de meus interlocutores, supostamente, tucanos. Por algum motivo, nunca me conformei com o ditado popular que afirma o fato de não se dever discutir religião, política e futebol. Sempre achei que, tanto o futebol como a religião não podiam ser categorizados no mesmo quadro que a política. Enquanto, tanto a escolha por uma religião, como por um time de futebol - no caso do Brasil - são, em muito, escolhas influenciadas por uma paixão transmitida de pai para filho, de grupo para sujeito, a política, bem pelo contrário, não deveria se vincular a emoções partidárias infundadas, mas a uma crítica análise contextual. Sem dúvida, em dias nos quais a mídia é a janela da realidade, os efeitos sensórios das imagens, dos discursos e do carisma tornaram-se preponderantes. Entretanto, como pode alguém defender uma posição política apaixonadamente com o mesmo furor que defende seu time na final do campeonato, porém com a mediocridade crítica de um recém nascido em seu batizado? Se concordarmos que política não deve ser discutida, concordamos que uma posição partidária não é fruto de uma reflexão racional. Nesse caso, sim, a política não deveria ser discutida por uma simples razão: por não ser mais política. Sendo assim, alguém que não discute política, deveria posicionar-se tal qual quem não discute futebol: alheio, sem prós, nem contras. Quem não discute futebol não nega um time ou o outro, mas o fenômeno futebol como um todo.
Que os jovens estão descrentes do processo democrático, é fato. E não há razões para culpá-los como os responsáveis exclusivos. O contexto político, principalmente no Brasil, favorece esse posicionamento niilista. A juventude das classes média e alta nasceu em um país com uma democracia aparentemente consolidada, com direitos constitucionais assegurados, liberdade aparente e um crescente conforto sócio-econômico. Ou seja, por mais que falhas políticas ocorram, elas parecem não serem passíveis de ser modificadas, e mesmo não sendo modificadas, “melhorismos” individuais sempre ocorrem como que por acaso: universidades federais, carros, viagens e estabilidade. Já a juventude das classes menos favorecidas o que poderia fazer se reconhecem os jovens da alta classe, mesmo providos com estudo, dignidade e conhecimento não conseguindo mudanças? Porém, a ideia da descrença está ficando para trás, os jovens não estão mais negando o processo democrático (o que seria uma posição aceitável, já que negar a democracia também se constitui em movimento político), mas eles estão tornando-se reprodutores alienados de crenças sociais aberrantes. Dentre elas destaca-se a ideologia, não mais neo-liberal, de direita, privatizante ou outra afim, mas a do que eu chamo de “antismo”. Exemplifico o antismo como sendo um movimento alienado encabeçado por jovens da classe média e alta que, reproduzindo uma emoção estereotipada adquirida e consolidada a partir da convivência, inicialmente familiar e, posteriormente, grupal de pares igualmente alienados. O que em outrora era uma discussão inteligente e válida entre projetos antagônicos: direita e esquerda. Hoje se tornou nada mais do que um fantochismo. O que antes seria discutido em termos de “Estado forte/Estado mínimo”, “terceirização de empregos/ampliação da máquina estatal”, “mercado externo/mercado interno”, “fortalecimento do terceiro setor/industrialização” e etc, nesses tempos, é restrito a “é feio/feia”, “sabe se expressar/não sabe se expressar”, “parece convincente/não parece convincente”. Ou seja, o mais importante cargo do poder executivo do Brasil poderia ser melhor escolhido por estilistas ou diretores de Hollywood, afinal imagem, aparência e emoção é o que passou a contar, projetos políticos que nada.
O máximo do absurdo foi ouvir de jovens descontraídos às custas de suas brisas e vapores etílicos relatos convictos como o de terem votado em Marina Silva e até Plínio de Arruda Sampaio no primeiro turno, mas que, no segundo, seu voto seria para Serra. Esse contexto nonsense de, em menos de 30 dias, alguém passar seu voto do centro ou da esquerda para a direita, me pareceu uma oportunidade ímpar de entendimento de uma realidade, até então, ininteligível. Porém, a constatação foi uma só: o maior dos pecados, a generalização, me apanhou. Ao conversar com aproximadamente 15 jovens que declararam votar convictamente em Serra, constatei que nenhum possuía um argumento plausível sequer. Esse episódio, para mim, marcou o nascimento do novo movimento político [político?] Antismo. Esse movimento contempla tanto aqueles que votam na direita por se colocarem manipulada e ingenuamente “anti” o PT, bem como aqueles que votam na direita sem nem ao menos pensar o porquê, nesse caso o Antismo perde a conotação de contrariedade e oposição, reformulando-se no movimento que amistosamente abarca todas as antas que andam por aí, sem senso crítico, sem percepção da realidade, sem nada que esteja além do hedonismo vazio dos rituais e ficções sociais.
Sociologicamente estaria cometendo um pecado ao inferir que minha insignificante amostra é representativa para ser generalizada a um contexto mais amplo, porém nessas eleições cansei de procurar alguém da direita, um direitista declarado que esteja fora do jogo político. Quero um cidadão, um civil de direita que possa me dizer, me explicar, me dar uma razão, uma apenas: por que votar no Serra? Suplico, apenas para que a explicação seja mais ampla do que críticas comuns a programas sociais, teoricamente, ineficientes, à suposta corrupção generalizada e, por favor, longe, bem longe do “odeio o PT”, “quem era a Dilma antes”, “Dilma é nome de vó”, “Dilma era assassina/ ladra e todos os demais derivados da boataria infantil da direita”, “Dilma é produto do Lula”, “O PT virou de direita [essa é incrível! O PT virou de direita, portanto voto no PSDB]”, “O PT se aliou a Collor, Sarney e cia”.
Esse post é um pedido de um curioso com medo de tornar-se preconceituoso. Quero um partidário da direita que me prove - e não me comova - que não são só as antas que votam no Serra.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
O Que Queres de Mim Estás em Ti
De fato, viver, simplesmente, é o maior sentido que poderíamos encontrar em viver. Porém, nenhuma experiência ou ação dá-se sem uma motivação, pulsão, impulso, desejo, ou outro combustível qualquer. Alguns poderiam, até mesmo, chamar de paixão. Enfim, o homem desapaixonado, sem desejo, nada mais é do que um corpo, simplesmente carne em movimento. O que anima, dá vida, vitalidade e sentido à existência é a sensação de plenitude e de realidade se manifestando desde as organelas celulares mais primitivas até os poros do rosto. E uma das formas de se sentir presente e vivo é através da potencialidade de autorrealização. Essa capacidade humana de se auto motivar talvez seja uma das capacidades psíquicas mais incríveis da humanidade, pois dela dependem muitos outros atributos igualmente admiráveis. Ter a capacidade de se autorrealizar é poder sentir-se completo, satisfeito e feliz através das próprias ações e atitudes. Isso, claro, não exclui o papel fundamental das relações. Relação não só é o que funda o homem, como também é o que lhe dá o ambiente propício à autorealização. Porém, há de se ressaltar que ninguém é triste ou feliz por causa do outro, mas sim em função de. A grande diferença reside no fato de que muitos creem que o outro é quem deve ser o mote, a causa e a consequência do nosso desejo, do nosso prazer, da nossa felicidade e da nossa autorrealização. Entretanto, o outro, sim, é fundamental, mas não o fundamento. O fundamento está em nossa capacidade analítica de não perceber de forma simplória o universo, acreditando que o foco da realização são cada um dos dois indivíduos, separadamente. Não, o que deve ser foco da realidade relacional é o que une essas duas partes em uma só, em um mesmo universo. Sendo assim, o centro de atenção não deve ser dado apenas às peças isoladas, mas sim, também a tudo que compõe, reveste e dá sentido a elas, inclusive elas próprias e os efeitos que cada uma causa na outra e em si própria . É impossível separar causa e efeito, assim como é impossível analisar o outro sem analisar-se e deixar-se analisar. O outro só é outro porque existe um não-outro.
A atitude egoica de centrar-se somente em si, nos próprios desejos e na própria vontade limitam as capacidades transcendentes de ser mais do que se é. Quando se deixa fluir em meio a algo superior a si próprio, como é uma relação, e não se deixa mais guiar por sentimentos pequenos e puramente individuais, a autorrealização emerge como consequência imediata. Isso ocorre porque, enquanto optamos por preocuparmo-nos com aquilo que podemos fazer para o outro ser melhor e mais adequado para nós e para as nossas expectativas, deixamos de descobrir e inventar meios de sermos melhores para nós próprios. Disso decorre uma tripla frustração: frustramo-nos, em primeira instância, pela nossa incompetência em moldarmos, transformarmos e adulterarmos o outro segundo nossas próprias convicções. Essa derrota é um ataque voraz contra nosso narcisismo primordial, pois não aceitamos reconhecer que pessoas não mudam pessoas, mas que pessoas são mudadas por pessoas. Essa simples inversão de termos demonstra que no processo de viver a mudança e a transformação são inerentes à existência, porém não podem ser impostas através de vozes ativas e autoritárias, mas ocorrem através de uma relativa passividade que, com delicadeza, sutilmente coloca os sujeitos em comunhão; em um segundo nível, a frustração advém da nossa infelicidade e do vazio existencial que brotam de algum lugar dentro do peito. Mesmo estando acompanhados, sentimo-nos sozinhos, jogados na indescritível tragédia do existir. Essa frustração provém de toda a expectativa de gratificação que depositamos nos ombros do outro. Com essa ação abdicamos de nossa responsabilidade de guiarmos nossa vida, nosso destino, nossas desgraças e nossas conquistas. Ou seja, da mesma forma que acreditamos ser o outro o capaz e o responsável por nos fazer feliz, também lhe atribuímos o poder de fazer-nos tristes e vazios; no terceiro estágio, contemplamos a última frustração, aquela que surge em um momento no qual nos encontramos longe da possibilidade de refazer um destino, enfim, já consumado. Quando percebemos que nossas duas frustrações anteriores foram causadas quase que única e exclusivamente por nós mesmos, sentimo-nos culpados, arrependidos por não termos desistido e renovado nossas formas de agir, pensar e desejar nos primeiros passos desse caminho sombrio que ingenuamente escolhemos. Mesmo que o resultado do presente não pudesse ter sido totalmente diferente em função de ajustes no passado, com certeza sabemos que teríamos sido, ao menos, autorrealizados durante o percurso que nos trouxe até onde estamos. Portanto, haveríamos, senão mudado os rumos da história, pelo menos haveríamos mudado por onde a história rumou até aqui.
Viver é tão simples que precisamos criar jogos e complicações para que pareça, de fato, real. Temos medo de que aquilo que flui e não causa desconforto possa passar sem ser sentido, sem ser notado, sem ser vivido, como se fosse um sonho. Então, por medo de estarmos dormindo, encarregamo-nos constantemente de beliscarmo-nos pela pura necessidade de cessarmos a angústia de existir, em busca da leviana certeza de estarmos certos. Para seguirmos nesse caminho “certo”, inventamos problemas complexos almejando o êxtase volátil de poder resolvê-los, muito embora viver com intensidade é estar plena e constantemente realizado em saber realizar-se constantemente através de tudo aquilo que nos faz cada vez mais parecidos com o que somos.
domingo, 10 de outubro de 2010
Paradigmo, paradigmas, paradigma
A ciência – palavra inicialmente caracterizada como a ambição pelo conhecimento e pela apreensão de uma realidade oculta, misteriosa e não compreendida “racionalmente” – foi, de forma gradual, capturada e ressignificada, hoje estando a serviço da concepção que a considera tão somente aquilo que se presta a desvendar as leis dos fenômenos, valendo-se do método científico e de princípios gerais para investigar a realidade. Ou seja, a visão de mundo, estritamente positivista, ainda se faz dogma. Porém, como enfatizou o filósofo Bachelard, ao deparar-se com teorias modernas, a evolução do conhecimento é descontínua e ocorre por oposição aos sistemas anteriores, visando a ultrapassar os obstáculos epistemológicos neles arraigados. Essa teorização, denominada “corte epistemológico”, dá início ao reconhecimento do esgotamento e limitação de qualquer cosmovisão, pois, independentemente do arcabouço intelectual e referencial teórico adotado, todo observador é limitado e, como expôs Bachelard, “face à realidade, o que julgamos saber claramente ofusca o que deveríamos saber”. Dessa forma, nosso próprio conhecimento impossibilita-nos de tornarmos plenamente cognoscível e apreensível toda a realidade.
Seria o niilismo ortodoxo a salvaguarda para a verdadeira ciência? Apesar de muitas opiniões afirmativas a respeito, o próprio absolutismo passional niilista é passível de tornar-se obsoleto. Talvez a maior contradição em que incorre a ciência atual é, em seu afã para esgotar a angústia de vivermos cercados por contingências imprevistas, querer absolutizar, ditatorialmente, suas verdades generalizadoras como verdades totais e não como apenas uma amostra de formas singulares, dentro das outras infinitas formas possíveis de se compreender a realidade imediata.
O próprio fato fundamental de o que hoje é amplamente reconhecido como sendo a “ciência” amparar-se em princípios generalizáveis denota uma insuficiência para a compreensão da realidade, principalmente se o “objeto” em questão tratar-se de um fenômeno biológico, seja ele animal humano, seja animal não-humano, tendo em vista o incomensurável universo de singularidades, onde cada organismo é um único expoente existencial.
O que urge não são novos manifestos iconoclastas, mas, ao contrário, manifestações que se pautem por proposições verdadeiramente conciliatórias as quais revisem não o “o que” é feito, mas o “como” o é. Assim sendo, todos os aspectos e pontos de vista poderiam passar a formar nexos alternativos, estabelecidos em níveis de relação com graus diferenciados de concordância, e não mais nos valermos da pura oposição binária de forças. Isso comporia a teoria do denominado “rizoma”, idealizado por Deleuze e Guattari, uma analogia de contraponto à estrutura da raiz, a qual, mesmo dispondo ao seu entorno de variadas ramificações, não é atingida uma verdadeira multiplicidade, pois a conformação radicial pressupõe uma unidade metodicamente distribuída com início e fim, uma lógica dicotômica e, portanto, fascista, porquanto constrange as infinitas possibilidades somente em singelas binariedades de ser e não ser; de bom e mal; de certo e errado; de dominadores e dominados; de normais e loucos. A partir dessa lógica limitada, por não compreender a qualidade dual, múltipla e complementar da realidade, a pretensa verdade - quando muito – é disposta em polos antagônicos. Entretanto, essa disposição desconsidera todo o aspecto dimensional e paradoxal do plano de estudo que, há muito, se sabe não ser cartesiano.
Imediatamente ao estabelecermos vínculos, somos quase que como impelidos a engajarmo-nos a filiações e a partidarismos preestabelecidos e predeterminados. Assim é quando aderimos a certas instituições, sejam elas físicas, sejam ideológicas. Contudo, não deveríamos nos despir de nossa singularidade com a finalidade de melhor interpolarmo-nos a um paradigma, pois cada realidade é um novo paradigma em potencial. “Paradigmar” não deveria ser um verbo restrito a uma terceira pessoa, precisamos reapropriarmo-nos dele e expressarmos a realidade – da qual também somos elementos constituintes - de forma mais singular e fidedigna possível; precisamos redescobrir a forma flexionada e íntima do Eu, tão próximo, mas, ao mesmo tempo, tão distante em tempos de pretensões ingênuas de neutralidade, imparcialidade e objetividade.
Uma forma de contribuir-se para a renovação desse quadro é o investimento individual em novas práxis, as quais não se conformem em, simploriamente, reproduzir a lógica e racionalidade vigentes. A partir do momento em que nos entregamos passiva e apaixonadamente a qualquer verdade que seja, - inclusive esta - estamos desfazendo-nos um pouco mais daquilo que somos. E somos mais do que mente e do que corpo e do que ambos; somos o eterno devir de algo que não se sabe e nunca se saberá, pois os limítrofes do saber são demasiadamente estreitos para serem constritores da singularidade de cada fenômeno existencial que somos.


