segunda-feira, 9 de junho de 2014

DURA NA FRONTEIRA





    Lembrei-me da vez em que eu estava em uma estrada deserta. Cenário bucólico ideal para esquecer-se de si, relaxar, enfim, desligar.
    Eis que nesse êxtase encantador observo o belo dia, verdes pastagens que foram aradas pelo latifúndio, vazio do pós-colheita. É o protetor de tela do Windows.
    O mergulho ao âmago do meu ser foi tão forte que que resolvo ligar para minha mãe.
    Falo vinte minutos com a coroa e desligo. Vou entrar no carro para partir, mas, eis que surge uma s-10 do GEFRON (Policiais do Grupo Especial de Fronteira) e pede-me para me afastar do automóvel.
    Começa uma revista em meu carro para saber se portava drogas para o tráfico ou não.
    Nesse momento quase posso suar frio. Não sou traficante mas dou uns tapas de vez em quando e estava por um triz de ter que enfrentar o constrangimento e ser tachado legalmento como “usuário”.
    Olharam embaixo do painel do meu carro, porta-malas embaixo do banco. Tudo ok, estava limpo.
    Junto com minha mochila, violão e outros pertences estava meu saquinho de erva, filtros, fechador de cigarros e seda, ou seja, um kit maconheiro.
    Por precaução eu enrolei esses materiais em umas três sacolas plástica de supermercado. Um dos guardas que olhava minha mochila, violão e outros pertences pegou nas mãos o saquinho. Gelei novamente, ele olhou nos meus olhos que estavam vermelhos como de uma lebre, deu um sorriso de canto de boca e largou o saquinho de volta.
    Os guardas entraram na caminhonete e sumiram pelas estradas do Montese. Nunca mais os vi. Nunca mais fui lá.






segunda-feira, 2 de junho de 2014

FRAGMENTOS DE VIAGEM À CIDADE DE "Z" ( continuação IV )





      Percy Fawcett teria descoberto em suas explorações na América do Sul uma espécie de estátua que descrevia um mapa, tal mapa indicava que na região entre Barra do Garças e Nova Xavantina haveria uma cidade evoluída que mantinha relações extraterrestres. Cidade esta  cuidada pelos índios da região que tinham ética suficiente para conviver com tamanho conhecimento e poder. Muito contrário da maioria dos homens de nossa sociedade consumista e capitalista.
     A entrada dessa cidade, uma espécie de Atlanta, se daria no portal do Roncador.
     Portal do Roncador é uma reserva ecológica onde há formações rochosas encaixadas em formato de chaminés de barro, ou melhor descrevendo, picos rochosos de grandes altitudes. O lugar tem desenhos rupestres, escritas de outros povos que a princípio não pertenciam a essa região, aparições ufológicas, pontos de luz e inúmeras ordens esotéricas. Lá conheci Maurinho.




segunda-feira, 26 de maio de 2014

LÁ NO CÉU



Lua cheia

é o arco Íris

em linha reta, com suas sete cores,

seus sete espectros.

Girando no céu a noite continuamente.



segunda-feira, 19 de maio de 2014

MOÇOS




Já avisaram os pobres moços

Que no caminho dos amores

Não existem atalhos,

Apenas trabalhos

Que resultam em um pseudo nada absoluto,

Absoluto nirvana

Que nenhum mortal ousara adentrar ?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

AMOR DE CARNAVAL



   


    O carnaval pode ser uma época triste onde solteiros procuram um amor eterno disfarçado de uma paixão fugaz.
    Casadas e casados sofrem com as brigas que convenientemente a época traz atrelado ao sumiço da cara-metade que se perde entre orgias e salões. Por esses e outros fatores é possível que o carnaval possa ser triste para certo número de pessoas.
    Havia um jovem que estava na faixa dos vinte anos e acreditava ter encontrado a mulher de sua vida. Sentia-se o mais afortunado dos homens. Tão moco e já contemplado no consórcio do amor.
    Conhecera de vista a menina de sua escola, mas, conversara com ela pela primeira vez uma reunião na casa de um amigo em comum. A paixão foi fulminante.
   Sonhos e devaneios de uma cinematográfica vida perfeita a dois tendo ela e ele como protagonistas não saia de sua cabeça. A sensação era celestial, não queria mais nada da vida.
    Transcorridos oito meses de intensa paixão, chega o carnaval e suas tentações.
    Subitamente na semana que antecedia o carnaval ela virou uma verdadeira fera na segunda-feira. Na terça ficara rabugenta, frígida na quarta, ausente na quinta e extremamente violenta na sexta.
   Uma briga em que palavras foram usadas como lâminas sangrando o mais nobre dos sentimentos e evocando os mais horrendos que um coração magoado e ferido pode ter.
   Sumiu na madrugada da sexta-feira. Madrugada esta que inaugura os devaneios permitidos de uma legítima festa da carne. Um mar de braços, pernas e bocas lânguidas e envolventes.
   Nunca mais vira seu suposto amor. Sumiu na sexta fatídica de um carnaval entre lantejoulas, camisinhas, bebidas e prazeres.




terça-feira, 29 de abril de 2014

ETÇ E OUTRAS COISAS

      É estranho os seres humanos buscarem uma unidade, religião, entendimento com o próximo se eles são tão díspares entre si.
      Chego quase a afirmar que, o que une as pessoas são as diferenças, como o que alivia os homens não é a presença de Deus, mas,  sim a sua ausência.
     Em nossa sociedade de agora ou de outrora as verdades sempre foram transitórias. Vejamos alguns exemplos disso: Ovo, chocolate, sexo, drogas, religião, trabalho, sono e muitos outros exemplos que poderia citar.
    Atualmente minha verdade, consciência e entendimento transitório sugerem-me que um mundo igual, uniforme e corriqueiro seria um tédio. Não evoluiria e talvez nem existisse.
     Crentes dizem que Deus surgiu, fez surgir o mundo, pessoas e formas de vidas diferentes, porém a ciência afirma que o choque de micro células diferentes que se completaram é que fez surgir o mundo.
     A certeza é que tanto Deus ou a ciência admitem que as formas de vida existem por causa das manifestações das diferenças que se deram através do contato com o diferente, ou seja, a vida animal, humana e até o sexo se deram pela junção dos diferentes.
     O prazer pleno se dá através do outro. Nem a masturbação funciona se não houver a imagem de outro ser diferente.
     Não estamos sozinhos no mundo justamente por que somos diferentes, etc e outras coisas






                                                           "Ser diferente é do caralho"
                                                                                                             Vozes populares

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas





Quando aquilo que é deixa de ser, tudo se dissipa em algum vão, só restam os móveis imóveis e um funesto silêncio. As esquinas, dobras e quadras lembram histórias que quando lembradas parecem apenas desperdícios de uma fútil tristeza desolada. O que é vivo e vívido não merece ser contado ou explicado, apenas sentido. Mas o que resta ao que não pulsa mais? As folhas que começam a cair já não encantam por sua leveza, nem o canto dos pássaros por sua sabedoria. De repente, todas as impressões metafóricas da vida tornaram-se tijolos e concreto entulhados, amontoados, não mais que cacos agregados por uma densa e insustentável preguiça de inventar arquiteturas impossíveis. Sol que não ilumina a escuridão, brisa que não afaga uma fria solidão. Medalhas de ouro e títulos de prata escorrem por entre os dentes de uma alma esvaziada. O gelo do metal não representa mais o seu valor. Quando o que é se dissipa, a arte deixa de completar, resta apenas um corpo, uma silhueta qualquer, um amontoado de partes e partículas incapazes de sorrir e encenar. O ator desce do palco e contempla, da platéia vazia, a banalidade da sua própria atuação, sem ação, imóvel, estagnado para todo o sempre, de olhos fechados a esperar o tempo. Parte e partículas que não dançarão; olhos e olhares que não mais olharão. A arte, a graça, a brasa, tudo se foi. Não há, nem nunca haverá um substituto àquele olhar. Não há lar. Amargo lar.

sexta-feira, 21 de março de 2014

FRAGMENTOS DE VIAGEM À CIDADE DE "Z" ( continuação III )




    Não resisti, minha curiosidade foi maior.
    A adrenalina em conhecer universos discrepantes do meu fez-me  fazer contatos com os “manos” indígenas .Para minha surpresa, foram muito receptivos.
    Após meia hora de conversa, dois baseados, diferenças linguísticas e piadas de gaúcho, me levaram para sua aldeia para experimentar um chá feito com a erva da Jurema.
    Jurema é uma árvore sagrada para os indígenas e dela eles extraem a casca para fazer um chá que é utilizado em seus rituais. O chá é feito sob as instruções do Pajé, líder espiritual indígena. Da erva da Jurema levaram-me para Serra do Roncador.
    Serra do roncador é um lugar envolto em mistérios metafísicos e extraterrenos. O mais famoso deles é o desaparecimento de Percy Fawccet, um explorador do museu britânico que teve a permissão negada duas veze para fazer pesquisas no interior do mato grosso. Uma dessas permissões fora negada pelo próprio marechal Cândido Rondon, responsável pelos assuntos de fronteira e relações internacionais dessa região.

      

                                                                                 (CONTINUA)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

POVO + MOVIMENTO PASSE-LIVRE=MOVIMENTO DE MARIONETES

  

    O que o povo brasileiro tem haver com o Schumacher, por que temos pena do Anderson silva e sofremos com a derrota de nosso time? Por que somos marionetes da mídia.
    Recordo que em 2009 o Brasil torcia avidamente pelo  direito de sediar a copa do mundo. Houve piadas do tipo “quero um marido padrão Fifa” entre outras. Por que agora a mídia está jogando a choldra contra a copa? Tem algo podre no ar.
   É possível admitir que a direita e as elites brasileiras são astutas e inteligentes.Tentaram o movimento “cansei”. Não deu certo.Tentaram reeditar a estória do caos aéreo.Não vingou. Tentaram causar furor de insatisfação com o “mais médicos”. Também não deu.


   A juventude estudantil de esquerda brasileira após décadas de inércia cria um movimento bacana denominado “passe-livre”. A direita se apodera dele desde o início levando-o para o ralo. Os verdadeiros líderes do “passe-livre” se retiraram, a direita se aproveitou e continua usando ele para criar insatisfação onde a direita elitista perdeu o trono.Podemos afirmar que o movimento virou "massa de manobra".   

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

FRAGMENTOS DE VIAGEM À CIDADE DE "Z" ( continuação II )

     Minha curiosidade, senso de adrenalina, mais a sensação que estava em um processo sagrado fez-me vencer qualquer receio que houvesse em mim para não falar com meus conterrâneos de pele vermelha.
     Comecei perguntando-lhes se conheciam a Serra do Roncador e suas lendas. Afirmaram que sim e que se eu quisesse, poderiam ser meu guia pelas matas do Roncador por um preço módico, é claro.
     Expliquei-lhes que não sou os playboys ou ricaços que circulavam por aqui atrás de alguma coisa que não sabiam o que é. Disse-lhes que procurava uma indicação, mas o caminho quem faria era eu.

                                                ( continua )

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O GRITO DO GRILADOR

    Os newcoronéis de Mato Grosso do Sul  reuniram meia dúzia de “gatos pingados” para exigir o direito de manter as terras roubadas de seus primeiros habitantes. Essa gente que possui o que há de mais podre no senso comum,vomita aos quatro cantos da Campo Grande que querem a volta da oligarquia onde com um sapato ou um saco de farinha se comprava votos,terras e acumulavam poder.
     O cidadão que não acredita que o” Grito do Produtor” nada mais é do que um desejo de perpetuar o coronelismo no Mato Grosso do Sul é um alienado.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

QUEM SOFRE O PECADO?


   



      O conceito de pecado é interessante. Eu como descendo dos silvícolas, compreendo a dificuldade de meus antepassados em compreenderem esta latina palavra.
         Não é a palavra em si, mas sua amplitude semântica, melhor traduzindo, o conjunto de elementos que compõem esse sentido.
         Hoje, ano de 2013, posso dizer que algo errado e pecado deveriam ser sinônimos. Não é! É muito mais.
         É possível afirmar que pecado é uma ação. Se há uma ação deve haver quem a cometa e quem  sofre seus efeitos.
         Como se chama quem sofre a ação do pecado?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

MEU AMIGO PEDRO - RAUL SEIXAS




    
   
      Clássica música dos geniais Raul Seixas e Paulo Coelho, a letra da canção trata das diferenças de visões de mundo e conflito de gerações.
      Raul dedica esta canção ao seu irmão Plínio, que, diferente de Raulzito, tomou um rumo mais “normal” na vida.
     Por outro lado, a concepção da letra teve a importantíssima colaboração de dom Paulete (apelido dado por Raul a Paulo Coelho), o lendário parceiro do maluco beleza.
     Pelo lado de Paulo, a canção expõe a conturbada relação de amor e sofrimento que o mago teve com seu velho e imponente pai, o senhor Pedro Queima Coelho.
     Na infância, adolescência e até no início de sua juventude, o velho Pedro não conseguia entender o universo do seu esquisito filho, chegou a internar o futuro escritor em uma clínica psiquiátrica com tratamento muitas vezes a base de eletro choque.
     No documentário Raul- o início, o fim e o meio, Plínio Seixas afirma que tal música fora feita para ele, e que gosta da mesma.
     Na biografia “O mago”, de Fernando Morais, ele revela que a letra fora feita para o pai de Paulo Coelho, o senhor Pedro Queima Coelho.
     Óbvio que o nome Pedro fora devido ao parceiro de Raul ter criado o “esqueleto" da letra, mas, Raulzito colocou elementos e a parte musical para assim também estender a música ao irmão mais novo, e assim, transformando “Meu amigo Pedro” em uma obra de arte, pois, um dos pilares da arte é sua plurissignificância.
    “Meu amigo Pedro”, composta nos anos 70, período que Raul e Paulo mergulharam de cabeça na “Lei de Thelema” , porémque resultou em esta grande composição para a música popular brasileira e também para o rock and roll brasileiro, ou, como preferia o baiano, um ye ye ye realista.


MEU AMIGO PEDRO

Música: Raul seixas

Letra: Raul seixas e Paulo Coelho

Lp: Há 10 mil anos atrás

Ano:1973



Muitas vezes, Pedro, você fala

Sempre a se queixar da solidão

Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro

É pena que você não sabe não

Vai pro seu trabalho todo dia

Sem saber se é bom ou se é ruim

Quando quer chorar vai ao banheiro

Pedro, as coisas não são bem assim

Toda vez que eu sinto o paraíso

Ou me queimo torto no inferno

Eu penso em você, meu pobre amigo

Que só usa sempre o mesmo terno

Pedro, onde 'cê vai eu também vou

Pedro, onde 'cê vai eu também vou

Mas tudo acaba onde começou

Tente me ensinar das tuas coisas

Que a vida é séria e a guerra é dura

Mas se não puder, cale essa boca, Pedro

E deixa eu viver minha loucura

Lembro, Pedro, aqueles velhos dias

Quando os dois pensavam sobre o mundo

Hoje eu te chamo de careta, Pedro

Que você me chama vagabundo

Pedro, onde 'cê vai eu também vou

Pedro, onde 'cê vai eu também vou

Mas tudo acaba onde começou

Todos os caminhos são iguais

O que leva à glória ou à perdição

Há tantos caminhos, tantas portas

Mas somente um tem coração

E eu não tenho nada a te dizer

Mas não me critique como eu sou

Cada um de nós é um universo, Pedro

Onde você vai eu também vou

Pedro, onde 'cê vai eu também vou

Pedro, onde 'cê vai eu também vou

Mas tudo acaba onde começou

É que tudo acaba onde começou



Compositores: Paulo Souza / Paulo Coelho De Souza / Raul Seixas / Raul Santos Seixas

Letra de Meu amigo pedro © Warner/Chappell Music, Inc

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

ICANN ESPIONA VOCÊ


Tenho certeza que todo e qualquer SMS, e-mail ou comentário na internet ou outra forma de comunicação eletrônica está armazenado em algum servidor da ICANN .
    Tirando os 98% dos adormecidos que nada lhes causa interesse se não tiver o aval da rede globo,ninguém saberá o que estamos falando,quiçá irá querer saber disso.
    Nosso meio não consome arte, tão pouco conceito ou ideologia. No máximo alguma consciência capitalista para uma  ascensão econômica.
    Nesse momento vejo um caminhão carregando umas oito pessoas com uniformes feitos de restos de outros uniformes. Universo das submassas, subgentes e subculturas que é o nosso mundo.
    Confesso que estava observando a vida que passa pelas subestradas da vida,talvez diria a dupla “Milionário e José Rico” se estivessem experimentando a erva do meu chimarrão com a delícia do vento gélido que percorre os horizontes do Canhadão.

    Dizem que o vento pode espalhar ou ajudar a criar raízes.Será?

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

FRAGMENTOS DE VIAGEM À CIDADE DE "Z"







Ao transitar pelas ruas de Barra do Garças, deparo-me com indígenas conversando em guarâni. Aquela língua tão antiga, distante,  ali na minha frente. Não podia compartilhar daquela língua tão bela e tão antiga. Uma pena!
    Enquanto refletia sobre o muro semântico-linguístico que nos separava, desconfiava dos índios, eram dois. Poderiam e aparentavam serem malandros e poliglotas, mais malandros que políglotas.



(continua)

domingo, 17 de março de 2013

Só Para Loucos


Escrever é transpor para realidade o irreal. Mais do que isso, escrever é concretizar a irrealidade de descrever o real. Aquele que escreve busca o impossível. Não sem razão. Ele quer concretizar, reduzir, simplificar aquilo que lhe afronta por ser abstrato, infinito, complexo e, mesmo assim, localizado; localizado em algum lugar no seu interior.
Na verdade, escrever é um ato escatológico de ESPREMER um parasita purulento que pernicioso espraia-se contaminando a alma e a mente. Escrever com alma é escrever para salvá-la. Não por acaso, a fala gagueja ao distinguir gênios e loucos. A genialidade é o desespero da alma em curar-se da loucura. A loucura é um verme. No entremeio disso tudo, está cada um de nós. Mais ou menos sãos, mais ou menos idiotas. Enquanto incubados em uma realidade plana e unidimensional, podemos atestar a nós mesmos nossa sanidade. Entretanto, ao sermos expostos à menor brisa que seja, corremos o risco de vermos a claridade das infinitas perspectivas ofuscarem nossa visão, desmaterializarem nossa realidade, dissolverem nossa razão. Em uma realidade em que o real não existe, o que resta sempre é uma representação do que nunca foi apresentado.
... e dizia o letreiro luminoso da entrada: só para loucos...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Niilismo


Nas ruas de uma noite eterna se misturam presente, passado e futuro. Alegorias vaticinam o além. Entre lágrimas e lamentos, escorrem presentimentos presentidos na escuridão de um desalento. Do desamparo decaído, um bordão faz eco à solidão de um grito retraído. Se o destino se fez algoz, o acaso acalenta a atroz agonia. De mãos dadas, ilusão e nostalgia amaldiçoam o pretérito quase-perfeito. A débil perseverança amordaça a razão. Fac-símile do absurdo, a existência transveste-se de nonsense. O ponto alto da tragédia é a consciência do existir nu, despido de qualquer cobertor. Sísifo, sua rocha e seu penedo. A verdade da pedra antagoniza o obscurantismo do peito. Voltar para trás, descer para baixo. O pleonasmo ratificador aponta a inconteste direção da decadência. Na ausência do reflexo, o espelho e sua mentira esfacelam-se. Dos cacos reluzentes, mil imagens reverberam as trevas que pululam dos poros e inundam alma. Demasiadamente humano para assentir a condição de ser livre, liberto, solto, isolado. Desconstrução, desmistificação, destruição. Caminhos a caminhar, nados a nadar. Nada.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O braço da arrogância jamais verá o rosto da minha humildade.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Um Livre Suspiro

Sou aquele ou aquilo que se perde para não se encontrar. Que ruma e desarruma em direção a lugar nenhum. Que se deixa guiar ao sabor dos ventos que destinam um destino distinto de qualquer cor tingida no ar. Sigo com o único objetivo de não objetivar metas retas. Quero curvar pelos caminhos que se podem fazer transversais. E simplesmente viver demoradamente com todo o empenho de quem não tem tempo a perder. Sou aquele que segue pela deriva existencial de estar e se sentir vivo a cada badalada do coração. Faço do que chamam nada o meu tudo, e do mais simples borrão uma razão para ter uma ideia, caminhar numa loucura ou viver uma utopia. Se me faço louco por querer ser livre ou torpe por ser feliz, que o infinito e o acaso deem força à minha insensatez e deixem-me abandonar completamente minha razão, para eu poder viver eternamente o presente efêmero de um suspiro infinito de liberdade.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Liberdade? Hein?

Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência, escreve: “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Infelizmente, terei que discordar. Atualmente, é dificílimo fazer compreender esse conceito. Entender é fácil. Explicar é possível. Porém, fazer os outros entenderem é quase impossível. Talvez, seja porque nesses dias o sonho humano não alimente a mais nada, a não ser à futilidade. A previsão de Orwell adiantou-se em, pelo menos, meio século.

A sociedade é tão repressora e reprimida, tão opressora e oprimida, tão alienadora e alienada que esse conceito está se tornando impronunciável. Lembro-me do livro 1984, de Eric Arthur Blair. No livro, é desenvolvida a “novilíngua”, o idioma criado pelo Partido do Grande Irmão. Uma passagem interessante é quando um funcionário expõe que “todo o objetivo da novilíngua é estreitar a gama do pensamento”. Ele continua, “no fim tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la”. As “crimideias” são os pensamentos relacionados ao conceito de rebelião, portanto considerados subversivos. No mundo de George Orwell, pseudônimo de Arthur Blair, o controle da realidade dava-se pelo controle das mentes. Destruir palavras era o primeiro passo para essa conquista. “Cada ano, menos e menos palavras, e a gama de consciência sempre um pouco menor.” De fato, a capacidade de conceituar a realidade é uma ferramenta indispensável às utopias que visam à transformação. “Como será possível dizer ‘liberdade é escravidão’ se for abolido o conceito de liberdade?"

Orwell escreveu isso em 1949. No livro, era previsto que a novilingua fosse um idioma perfeito até 2050. Entendia-se por perfeito o momento em que todo o conhecimento da anticlingua – idioma materno – fosse abolido. “Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar... não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência."

Incrivelmente, já em 2011, discutir sobre o conceito de Liberdade é uma tarefa significativamente árdua. Muitas pessoas não conseguem entender, visualizar ou, sequer, imaginar. Observo que é como se um entusiasta da informática tentasse explicar a cavaleiros medievais as maravilhas da internet wireless. Esse triste cenário não reflete apenas os efeitos de uma crescente imbecilização do pensamento contemporâneo, mas também das consequências de uma sociedade cada vez mais policialesca, institucionalizada e burocratizada.

Se crianças são criadas sem liberdade por pais que foram reprimidos, dentro de um Estado opressor, como se poderia vislumbrar o conceito de Liberdade? No senso-comum torna-se óbvio e auto-evidente que não seriam necessários tantos dispositivos de controle, de repressão e de normatização se os homens pudessem ser livres. Definitivamente, planta-se a crença de que a Liberdade não é possível para os homens.

A perpetuação dessa visão de mundo me espanta. Diferentemente dos cavaleiros medievais – que nunca tiveram contato com a internet wireless – a sociedade vive sob a égide da visão que nega a possibilidade de liberdade desde 1651, quando Thomas Hobbes publicou o Leviatã. A concepção de que as pessoas deveriam renunciar à sua Liberdade em troca de tranquilidade, não me pareceu eficiente. Desde Hobbes, duas guerras mundiais, fascismo, nazismo e outros ismos selvagens assolaram a humanidade. Não precisamos remeter somente a dados históricos para confirmar isso, podemos coletar as estatísticas atuais das grandes cidades. Concluirmos que o Direito Positivo não contribuiu para garantia do Bem Comum.

Quando falamos em Liberdade, imediatamente somos retrucados por visões apocalípticas, inerentes a um sistema doente. “Então todos poderão matar-se uns aos outros.” “A violência imperará!” “Será um retorno à barbárie!” “O que faremos com os que não quiserem trabalhar?” “E os ladrões?” É engraçado notar como todos têm certeza absoluta do que falam. Quase não há pessoas que critiquem a possibilidade de que, em liberdade, muitas formas de transgressões poderiam perder, imediatamente, seu sentido. Raras são as vezes que uns e outros refletem sobre a possibilidade de muitas “disfuncionalidades” do sistema existirem justamente em função, apenas, do próprio sistema.

Se não bastasse isso tudo, cada vez mais leis e normas são redigidas, cada vez mais as formas de punição se recrudescem, porém, cada vez menos, a paz é conquistada. Condomínios parecem prisões; carros, tanques de guerra; homens, soldados treinados para matar; e assim por diante. Tudo inútil. Não sei se sou o único, mas é exatamente isso que entendo por barbárie.

As pessoas estão cegas, alheias de suas próprias consciências. A noção de que o “Homem é o Lobo do Homem” não encontrou solução no apelo à lei e à ordem. Alguns homens já despertaram desse transe. Pena que ainda são poucos. Bertolt Brecht é um deles. Em seu poema, “Os Dias da Comuna”, num trecho ele diz: “Considerando nossas fraquezas, os senhores forjaram suas leis para nos escravizarem. As suas leis não serão mais respeitadas”.

Estão todos uns contra os outros, enfraquecendo-se mutuamente. Enquanto os homens deixarem-se iludir no sentido de que seus inimigos são os próprios homens, continuarão a legitimar esse sistema opressor e mediador das relações, sem nunca perceberem que é este mesmo o verdadeiro Lobo de todos os homens.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Vegetarianismo: ação política ou filosofia individual?

As lutas cada vez mais se esvaziam de sentido. A alienação torna-se sistêmica. Os pontos de fuga existem, mas vão sendo, um a um, apropriados. A visão individualista e fragmentada corrompe, distorce e confunde os meios e objetivos das causas. A luta coletiva, eminentemente de cunho político, torna-se uma lamentável, simplória e insignificante posição individual, isolada e sem anseios transcendentes. Enfim, tudo aquilo que é político se tornou sinônimo do enfadonho, do chato, do desprezível e do insuportável - com toda a razão, obviamente. Filosofias de vida, outrora de caráter subversivo e contestatório, perderam-se no caminho. E ações que antes eram relacionadas a perspectivas utópicas segregaram-se à míngua. Disso tudo decorre o fato de hoje existirem milhares de pessoas que optaram, sim, por não comer carne, mas não por tornarem-se Vegetarianos.


Há uma diferença fundamental entre não comer carne e ser Vegetariano. Não comer carne é simplesmente uma opção. Ser um Vegetariano é um ideal. Existe muita diferença entre ambos. Não comer carne pode ser resultado de infinitas circunstâncias: desde alguém que tão somente não gosta do sabor da carne até o caso de pessoas que apresentam restrições fisiológicas para uma alimentação carnívora.

Outro aspecto que desponta, é a escolha por estilos alternativos de vida. Muitas pessoas optam por aderir a determinados padrões de comportamento, em busca de diferenciação social. Obviamente, tal tendência não deveria causar espanto em uma sociedade movida por um sistema tão homogeneizante.

Claro, existem casos de pessoas que passam a não comer carne por respeito, amor ou piedade aos animais. Contudo, mesmo nesse caso, ainda assim, apenas são pessoas que decidiram, pura e simplesmente, não comer carne. Isso não deve ser considerado completamente negativo, no entanto não se pode confundir tal conduta como sendo a de um Vegetariano. Ser Vegetariano [com letra maiúscula] é, inextricavelmente, uma ação política, e portanto, um ativismo.

O ponto em que um mesmo aspecto (não comer carne) adquire feições divergentes é na consciência motivadora do ato. Quem opta por não comer carne como uma filosofia individual de vida não faz dessa prática uma ação subversiva, ou seja transformadora. Somente quando a motivação está em relação a um contexto mais amplo é possível vislumbrar, de fato, uma transformação. Uma filosofia de vida que não almeje transformar, nem mesmo pode ser considerada uma Filosofia. Filosofia é uma busca perpétua pela sabedoria. E somente se busca algo que não se pode alcançar, superando, infinitamente, o degrau anterior da ignorância inata, transformando, desse modo, a consciência do sujeito que procura.

O ativista Vegetariano – verdadeiro Vegetariano – é aquele que coloca em perspectiva a sua prática individual de não comer carne, objetivando transformar o seu contexto. Sentir piedade ou amor pelos animais nada mais é do que um aspecto propulsor. O que determina a efetividade, eficácia e importância de uma prática é a sua dimensão utópica. O sujeito ativo em sua existência – ativista em prol da vida – é aquele que tem consciência de que sua ação de não comer carne subverte a lógica vigente, subverte as relações estabelecidas com os seres vivos transformados em objetos de cobiça e de desejo.

É impossível a proposição de uma sociedade ideal ou igualitária enquanto houver um centro de poder sexista, racista, classista ou, no caso, especista. Qualquer que seja a concepção de mundo idealizada que se baseie somente ou no homem ou no branco ou no rico ou na raça humana será, invariavelmente, uma concepção parcial, reducionista, simplista e insuficiente para compreender a complexa dinâmica existencial da vida. Assimilar essa concepção e lutar por ela é o papel do Vegetariano. Para se alcançar esse objetivo é necessário muito mais do que não comer carne.

De forma sucinta, reduzir a quantidade de carne consumida pouco altera a realidade instaurada. Os estilos alternativos de vida podem ser denominados como modismos porque, em sua maioria, estão esvaziados de sentido. Pessoas que decidem não comer carne por qualquer motivação divergente da de desvelar a alienação funcional do sistema, não são nada mais do que reprodutores do próprio sistema.

Do mesmo modo que algumas centenas de milhares de chesters são poupados no Natal, outros milhares de cães toys, microtoys e outras derivações aberrantes geneticamente modificadas são produzidas em laboratório, o ano todo. Novamente, o sistema empenha-se em contentar os prazeres de donos e donas que optaram por não comer carne. O sistema reiventa-se. Ele sempre está pronto para atender o gosto do freguês, tenha ele o paladar que tiver: sangue escorrendo do cupim malpassado ou alface “só com vinagre”.

Enquanto milhares de autodenominados vegetarianos e vegetarianas enfurnam-se em suas academias em busca de estilos de vida “fitness”, o sistema não para. Em uma velocidade cada vez maior, ele segrega, individualiza e fragmenta a sociedade. Através de práticas individuais, embasadas em filosofias sem sabedoria, a massa pulverizada segue seu caminho, sem destino.

Alheios, alienados e isolados da realidade real, tentam amenizar esse absurdo desprovido de sentido. Consomem drogas [sintéticas ou nem tanto], consomem bens [não-duráveis ou induráveis], consomem vidas [virtuais ou ilusórias], consomem relações [pagas ou compradas], consomem felicidade [infeliz ou triste], enfim, consomem vida [morta ou assassinada]. De tudo que fica, é a certeza da longeva obsolescência existencial e das infinitas possibilidades impossíveis. Tudo são apenas ideias sem ideais, lutas sem causas, utopias sem esperanças. E no meio disso tudo, as ações políticas são esvaziadas de todo seu potencial revolucionário subversivo, tornando-se, apenas, novos aparatos distintivos nos cenários cults e, agora, culinários de uma modernidade pateticamente absurda.